R. v. Oakes
(1986) - A presunção de inocência, os limites do poder punitivo e a
proporcionalidade constitucional
Há uma
fronteira que o Direito não pode atravessar sem comprometer sua própria razão
de existir: aquela que separa a suspeita da culpa.
Uma pessoa
pode parecer suspeita. Pode estar em circunstâncias que despertem desconfiança.
Pode até ser acusada de uma conduta grave. Mas, em um Estado que se pretende
democrático, nada disso autoriza o poder público a transformar uma hipótese em
condenação.
Foi
justamente essa fronteira que a Suprema Corte do Canadá precisou defender em
1986, no julgamento de R. v. Oakes. O caso não envolvia um grande
escândalo político, um crime de repercussão internacional ou um personagem de
destaque. Seu protagonista era David Edwin Oakes, um homem que se viu
diante de uma questão constitucional muito maior do que a acusação que pesava
contra ele.
O que
estava em julgamento, afinal, não era apenas a posse de uma substância
entorpecente. Era a própria maneira como o Estado poderia tratar alguém
considerado suspeito de cometer um crime.
O HOMEM, A DROGA E A PRESUNÇÃO
Em 19 de
abril de 1981, na cidade de Calgary, província de Alberta, Canadá, David
Edwin Oakes foi encontrado com oito pequenos frascos, cada um contendo um
grama de resina de cannabis, na forma de óleo de haxixe.
Em uma
busca posterior, realizada na delegacia, a polícia encontrou com ele 619
dólares e 45 centavos.
Oakes
declarou que havia comprado dez frascos por 150 dólares para consumo próprio e
que o dinheiro encontrado era proveniente de um cheque de indenização por
acidente de trabalho.
A acusação,
entretanto, não se limitava à posse da substância. Oakes foi acusado de
possuí-la com finalidade de tráfico, infração prevista na legislação canadense
de controle de entorpecentes.
Havia um
detalhe decisivo na lei então vigente.
O artigo 8º
do Narcotic Control Act estabelecia uma presunção legal: uma vez
comprovada a posse de determinada substância entorpecente, o acusado seria
presumido como alguém que a possuía para fins de tráfico, a menos que
conseguisse demonstrar o contrário.
Em outras
palavras, o Estado precisava provar a posse. Depois disso, caberia ao próprio
acusado afastar a presunção de que pretendia traficar.
A lei havia
invertido o sentido de uma das garantias mais antigas do Direito Penal: em vez
de o Estado demonstrar a culpa, o cidadão passava a ter de demonstrar que não
era culpado.
E aqui
estava o problema.
A posse de
uma substância não significa, necessariamente, intenção de comercializá-la. O fato de alguém guardar uma determinada quantidade de droga não
permite, por si só, concluir que esteja praticando tráfico.
A lei
transformava uma possibilidade em presunção obrigatória.
A CONSTITUIÇÃO ENTRA EM CENA
Oakes
contestou a validade constitucional daquele dispositivo.
Seu
argumento estava amparado na Carta Canadense de Direitos e Liberdades,
incorporada à Constituição de 1982.
O artigo
11(d) assegura a qualquer pessoa acusada de uma infração o direito de ser
presumida inocente até que sua culpa seja comprovada, conforme a lei, em
julgamento justo e público.
A discussão
chegou à Suprema Corte do Canadá.
O
julgamento exigia que os magistrados enfrentassem duas perguntas fundamentais:
Uma lei
pode obrigar o acusado a provar que não praticou determinada conduta,
transferindo-lhe o ônus de afastar um elemento essencial da acusação?
Se essa
exigência restringe um direito constitucional, seria possível justificá-la em
nome de um interesse público relevante?
A primeira
pergunta dizia respeito à presunção de inocência. A segunda conduzia ao artigo
1º da Carta Canadense, que admite limitações razoáveis aos direitos e
liberdades, desde que possam ser justificadas em uma sociedade livre e
democrática.
A
Constituição canadense, portanto, não estabelecia direitos absolutos e imunes a
qualquer restrição. Mas também não autorizava o legislador a limitá-los por
conveniência, sem apresentar razões consistentes.
Era
necessário estabelecer um critério.
A DECISÃO DE 28 DE FEVEREIRO DE 1986
Em 28 de
fevereiro de 1986, a Suprema Corte do Canadá julgou o caso.
A decisão,
conduzida pelo então Chief Justice Brian Dickson, reconheceu que o artigo 8º do
Narcotic Control Act violava a presunção de inocência garantida pelo
artigo 11(d) da Carta.
A Corte
entendeu que, depois de comprovada a posse, a lei obrigava o acusado a
demonstrar, pelo critério do balanço das probabilidades, que não pretendia
traficar. Isso significava impor-lhe o ônus de afastar uma circunstância
essencial à caracterização do delito.
O problema
não estava simplesmente na existência de uma presunção legal. Estava na
transferência do encargo probatório para quem deveria ser protegido pela
presunção de inocência.
O Estado
não poderia presumir a intenção de traficar apenas porque alguém possuía
determinada substância.
A Corte
também examinou se aquela restrição poderia ser considerada justificável nos
termos do artigo 1º da Carta. Concluiu que não.
O recurso
do Estado foi rejeitado. O dispositivo legal foi declarado incompatível com a
Constituição e sem efeito.
A decisão
foi tomada por maioria de cinco votos contra dois.
Mas o
julgamento produziria uma consequência ainda mais duradoura do que a
invalidação de um artigo de lei: estabeleceria um método de análise
constitucional que passaria a orientar decisões futuras no Canadá.
O TESTE DE OAKES: QUANDO O ESTADO PRECISA JUSTIFICAR SUAS ESCOLHAS
A Suprema
Corte formulou critérios para avaliar quando uma restrição a um direito
constitucional pode ser considerada legítima.
Esse
conjunto de critérios ficou conhecido como Teste de Oakes.
O
raciocínio começa com uma pergunta: o objetivo perseguido pelo Estado é
suficientemente importante para justificar a limitação de um direito
fundamental?
A Corte
exige que se trate de um objetivo relevante, capaz de responder a uma
preocupação social urgente e substancial.
Mas isso
não basta.
É
necessário verificar se os meios escolhidos pelo legislador são proporcionais
ao objetivo pretendido. Essa análise envolve três dimensões:
Conexão
racional
A medida
adotada precisa guardar relação lógica com o objetivo que pretende alcançar.
Não pode ser arbitrária, injusta ou fundada em uma associação irracional.
No caso
Oakes, a posse de uma pequena quantidade de entorpecente não permitia presumir,
automaticamente, a intenção de tráfico.
Mínima
restrição
Mesmo
quando o objetivo é legítimo, o Estado deve utilizar meios que restrinjam o
direito fundamental o mínimo possível, dentro do que seja razoavelmente
necessário para alcançar a finalidade pretendida.
Não se deve
sacrificar mais liberdade do que o necessário.
Proporcionalidade em sentido estrito
Por fim, é
preciso ponderar os efeitos negativos da medida sobre os direitos individuais e
os benefícios que ela efetivamente proporciona à sociedade.
Uma
política pública pode perseguir uma finalidade legítima e, ainda assim,
produzir restrições tão graves que não se justifiquem diante dos resultados
esperados.
O teste
estabeleceu, assim, uma exigência importante: não basta ao Estado declarar que
age em nome do interesse público. Ele precisa demonstrar que sua escolha é
racional, necessária e proporcional.
O Oakes
Test tornou-se uma referência central na interpretação da Carta Canadense
de Direitos e Liberdades, influenciando a jurisprudência constitucional daquele
país.
A PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA E A DIGNIDADE HUMANA
Há uma
dimensão filosófica nesse julgamento que merece atenção.
A presunção
de inocência não é uma gentileza concedida pelo Estado ao acusado. Tampouco
constitui um obstáculo artificial à investigação criminal.
Ela
representa uma escolha civilizatória.
Ao
estabelecer que a culpa precisa ser demonstrada, o Direito reconhece que o
poder de punir não pode ser exercido com base em impressões, conjecturas ou
conveniências políticas.
A acusação
precisa apresentar provas. O acusado tem o direito de contestá-las. E a
condenação exige que a responsabilidade penal seja demonstrada segundo o padrão
jurídico estabelecido.
Isso não
significa impedir o Estado de investigar, processar ou punir. Significa exigir
que ele o faça dentro de limites.
A decisão
em R. v. Oakes também nos recorda que a proteção dos direitos
fundamentais não depende exclusivamente da existência de declarações solenes
nas Constituições. Depende, sobretudo, da capacidade das instituições de fazer
com que essas garantias tenham consequências concretas.
Uma
Constituição pode proclamar a liberdade, a igualdade e a dignidade. Mas, se o
legislador puder afastá-las sem justificativa consistente, tais garantias
correm o risco de se transformar em palavras ornamentais.
UM DIÁLOGO COM A CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA
A
experiência canadense oferece uma oportunidade interessante de reflexão sobre o
Direito Constitucional brasileiro.
Nossa
Constituição Federal de 1988 estabelece, no artigo 5º, inciso LVII, que ninguém
será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal
condenatória.
O inciso
LIV, por sua vez, assegura que ninguém será privado da liberdade ou de seus
bens sem o devido processo legal. O inciso LV garante o contraditório e a ampla
defesa.
São
garantias que integram a estrutura do Estado Democrático de Direito.
Há uma
aproximação evidente entre a proteção canadense e a brasileira: em ambos os
sistemas, a presunção de inocência funciona como limite ao exercício do poder
punitivo.
Naturalmente,
não se trata de afirmar que os dois modelos constitucionais sejam idênticos. O
Canadá possui uma cláusula expressa de limitação razoável de direitos, no
artigo 1º de sua Carta, cuja interpretação foi sistematizada pelo Teste de
Oakes. O Brasil possui sua própria tradição constitucional, seus mecanismos
de controle e uma jurisprudência construída a partir de dispositivos
específicos.
Ainda
assim, a comparação é valiosa.
O
julgamento canadense nos ensina que a existência de um objetivo legítimo, como
combater o tráfico de drogas , não autoriza qualquer instrumento de repressão.
A eficiência estatal precisa conviver com a legalidade, a racionalidade e a
proporcionalidade.
No Brasil,
onde frequentemente se confunde rigor penal com justiça, essa reflexão
permanece atual.
Uma
sociedade pode e deve combater o crime. Mas não precisa abandonar as garantias
que justamente distinguem a justiça da vingança.
EPÍLOGO: QUEM DEVE PROVAR O QUÊ?
O caso de
David Oakes começou com oito pequenos frascos de óleo de haxixe e pouco mais de
seiscentos dólares encontrados durante uma busca policial.
Poderia ter
permanecido como mais um processo criminal nos arquivos de um tribunal
canadense.
Mas a
questão que chegou à Suprema Corte ultrapassou a situação individual daquele
acusado.
A decisão
de 1986 deixou uma advertência para o legislador, para os tribunais e para toda
a sociedade: a presunção de inocência não pode ser afastada simplesmente
porque o Estado considera conveniente inverter o caminho da prova.
Afinal, se
bastasse ao poder público apontar uma suspeita e exigir que o cidadão
demonstrasse sua inocência, que segurança restaria a qualquer pessoa diante da
força do Estado?
O Direito
existe, entre outras razões, para impedir que a autoridade se transforme em
arbitrariedade.
E talvez
uma das maiores conquistas da civilização jurídica esteja precisamente nessa
ideia: não é o cidadão que deve provar ao Estado que merece ser considerado
inocente. É o Estado que deve provar, dentro das regras do Direito, por que
alguém pode ser considerado culpado.
Elson
Mesquita de Araújo
Advogado,
jornalista, escritor, pesquisador
REFERÊNCIAS ESSENCIAIS
SUPREME
COURT OF CANADA. R. v. Oakes, [1986] 1 S.C.R. 103. Decisão de 28 de
fevereiro de 1986.
CANADA. Canadian
Charter of Rights and Freedoms, 1982. Artigos 1º e 11(d).
CANADA. Narcotic
Control Act, R.S.C. 1970, c. N-1. Artigo 8º, dispositivo questionado no
julgamento.
DEPARTMENT
OF JUSTICE CANADA. Examples of Charter-related cases — R. v. Oakes.
DEPARTMENT
OF JUSTICE CANADA. Charterpedia — Section 1: Reasonable limits.
Documentos
para consulta:
Inteiro teor da decisão — Suprema Corte do Canadá
Explicação oficial do caso — Departamento de Justiça do
Canadá

