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8/11/2026

O CÓDIGO QUE NÃO ESQUECE-Alec Jeffreys e a revolução do DNA na investigação criminal

 


Lição da Ciência

"Algumas testemunhas esquecem. O DNA, quando preservado, pode permanecer."

 

Havia uma identidade escondida dentro de cada pessoa

Durante séculos, a investigação criminal procurou reconhecer pessoas através daquilo que podia ser visto.

O rosto.

A voz.

As cicatrizes.

As medidas do corpo.

As impressões digitais.

Depois, vieram os grupos sanguíneos.

Cada descoberta aproximava a investigação da identidade.

Mas nenhuma delas havia chegado tão profundamente.

Dentro de cada célula humana existia uma espécie de arquivo biológico.

Um código.

Uma assinatura.

Uma história que acompanhava o indivíduo desde o início da vida.

Era o DNA.

 

A descoberta que aconteceu às 9h05

Em 10 de setembro de 1984, no laboratório da Universidade de Leicester, o geneticista britânico Alec Jeffreys observava padrões de variação no DNA humano.

Ele estudava material genético de uma técnica de laboratório e de seus pais.

Então aconteceu algo que mudaria a história da investigação.

Os resultados apresentaram padrões extraordinariamente variáveis.

Jeffreys percebeu que determinadas regiões do DNA produziam combinações capazes de distinguir indivíduos e também revelar relações familiares.

A descoberta recebeu o nome de genetic fingerprinting — impressão genética.

O próprio pesquisador descreveu aquele momento como um verdadeiro instante de revelação científica.

Era como descobrir uma impressão digital escondida dentro das células.

 

O DNA não nasceu para prender criminosos

E há uma ironia fascinante nessa história.

A primeira grande aplicação prática da técnica não foi criminal.

Foi um caso de imigração.

Em 1985, a análise genética ajudou a solucionar uma disputa envolvendo a origem familiar de um jovem que poderia ser impedido de permanecer no Reino Unido.

Pouco depois, a técnica foi utilizada em um caso de paternidade.

A genética começava a demonstrar que podia responder perguntas que documentos, testemunhos e aparências nem sempre conseguiam resolver.

 


 Então a polícia fez uma pergunta

Se o DNA podia distinguir pessoas...

poderia também identificar quem havia deixado um vestígio biológico?

A pergunta mudaria a investigação criminal para sempre.

Sangue.

Saliva.

Sêmen.

Células da pele.

Folículos capilares.

Outros materiais biológicos.

Tudo aquilo que pudesse conter células humanas poderia, dependendo da qualidade e quantidade do material, carregar uma informação genética.

A cena investigada ganhou uma nova dimensão.

O corpo humano começava a deixar uma espécie de assinatura invisível.

 

A primeira grande prova veio de um caso que parecia impossível

Em Leicestershire, duas adolescentes, Lynda Mann e Dawn Ashworth, haviam sido assassinadas.

Um homem chegou a confessar um dos crimes.

A investigação parecia caminhar para uma conclusão.

Mas a genética faria algo extraordinário.

As análises de DNA demonstraram que o suspeito não era o responsável pelos crimes.

A ciência não apenas ajudou a encontrar um culpado.

Primeiro, ajudou a provar que um suspeito era inocente.

Essa talvez seja uma das maiores lições da história do DNA forense.

A ciência não existe para confirmar suspeitas.

Existe para testá-las.

 

Então começou uma busca por uma assinatura

A polícia realizou uma ampla coleta de amostras entre homens da região.

O objetivo era encontrar um perfil genético compatível com o material biológico relacionado aos crimes.

Durante a investigação, surgiu a informação de que um homem chamado Colin Pitchfork havia convencido outra pessoa a fornecer uma amostra em seu lugar.

A fraude chamou a atenção dos investigadores.

Quando Pitchfork foi finalmente testado, seu perfil genético correspondeu às evidências encontradas nos casos.

A investigação havia encontrado sua assinatura biológica.

Em 1986, o DNA havia entrado definitivamente na história da investigação criminal.

Pitchfork seria posteriormente condenado.

 

A ciência havia aprendido uma coisa extraordinária

Até então, o investigador procurava uma pessoa.

Agora poderia procurar uma correspondência genética.

Era uma mudança conceitual profunda.

O vestígio não precisava mais apenas apontar para uma característica física.

Ele poderia carregar uma informação molecular.

A investigação começava a descer até o nível mais íntimo da matéria viva.

 

Mas o DNA não é uma máquina de verdade

Aqui existe uma distinção que precisa ser preservada.

O DNA não diz:

"Esta pessoa cometeu o crime."

Ele pode indicar que determinado material biológico é compatível com determinado indivíduo, ou ajudar a excluir pessoas de uma investigação.

O significado jurídico dessa correspondência depende do contexto, da qualidade da amostra, da cadeia de custódia, dos métodos utilizados e das demais provas.

A própria genética forense não substitui a investigação.

Ela fornece informação científica.

A Justiça é responsável por interpretar essa informação dentro do conjunto probatório.

 

O olhar da História

A descoberta de Jeffreys inaugurou a era da identificação genética.

A técnica original de “impressão genética” utilizava regiões altamente variáveis do DNA e produzia padrões que podiam ser comparados entre indivíduos.

Posteriormente, métodos mais rápidos, sensíveis e adequados à investigação forense foram desenvolvidos.

O que começou com uma imagem complexa de fragmentos de DNA evoluiu para os modernos perfis genéticos utilizados pela ciência forense.

 

O olhar da Ciência

Hoje, a genética forense trabalha com métodos muito mais sofisticados do que aqueles disponíveis na década de 1980.

Pequenas quantidades de material biológico podem, em determinadas circunstâncias, fornecer informações genéticas úteis.

O desenvolvimento da biologia molecular ampliou enormemente a capacidade de comparar amostras e estabelecer vínculos entre pessoas, vestígios e investigações.

Mas o princípio permanece o mesmo:

uma parte do corpo pode carregar informação sobre o indivíduo ao qual pertence.

 

O olhar do autor

Talvez esta seja uma das histórias mais bonitas de toda a investigação criminal.

Durante milhares de anos, o ser humano procurou sua identidade no rosto.

Depois, no corpo.

Nas medidas.

Nas impressões digitais.

No sangue.

Até finalmente descobrir que carregava sua identidade em uma escala invisível.

O investigador já não precisava apenas perguntar:

"Quem é essa pessoa?"

Podia perguntar:

"Que informação essa célula preservou?"

E talvez seja essa a grande revolução da ciência:

não tornar o homem invisível.

Mas tornar visível aquilo que sempre esteve dentro dele.

 

Legado para a Justiça Contemporânea

O DNA transformou a investigação criminal, a identificação de pessoas, os testes de parentesco e a identificação de restos humanos.

Também produziu uma consequência especialmente importante:

a possibilidade científica de revisar erros do passado.

Uma tecnologia criada para identificar também pode excluir.

Pode reabrir casos.

Pode questionar condenações.

Pode revelar que uma suspeita estava errada.

Pode devolver um nome a alguém que morreu sem identidade.

A mesma ciência que ajuda a encontrar um culpado pode, em determinadas circunstâncias, ajudar a libertar um inocente.

Essa talvez seja sua maior força jurídica.

 

Para refletir

"A investigação encontrou no corpo humano uma testemunha que não fala, mas conserva."

Elson Mesquita de Araujo

Advogado, jornalista, escritor, pesquisador

REFERÊNCIAS

  • University of Leicester — História da descoberta da impressão genética por Alec Jeffreys.
  • University of Leicester — Cronologia da genética forense.
  • National Human Genome Research Institute — conceito e aplicações da impressão digital de DNA.
  • Literatura científica sobre genética forense e identificação genética.

O SANGUE TAMBÉM TEM MEMÓRIA-Karl Landsteiner, Leone Lattes e a descoberta de uma nova identidade

 


Lição da Ciência


"Antes que o sangue pudesse revelar um nome, a ciência precisou descobrir que ele também carregava uma identidade."

 

Durante muito tempo, sangue era apenas sangue

Durante séculos, encontrar sangue significava encontrar um vestígio.

Podia indicar que alguma coisa havia acontecido.

Mas não respondia à pergunta que interessava à Justiça:

A quem pertencia aquele sangue?

A pergunta parecia simples.

A resposta, entretanto, exigiria uma das maiores descobertas da história da Medicina.

 

A descoberta que mudou tudo




No início do século XX, o médico e cientista austríaco Karl Landsteiner percebeu que o sangue humano não era biologicamente igual em todas as pessoas.

Ao misturar diferentes amostras de sangue, observou que algumas combinações provocavam aglutinação das hemácias, enquanto outras não.

A partir dessas observações, Landsteiner identificou os primeiros grupos sanguíneos do sistema ABO.

Em 1901, publicou a classificação que estabeleceria as bases do conhecimento moderno sobre os grupos sanguíneos. O grupo AB seria identificado pouco depois, em 1902.

A descoberta explicava por que algumas transfusões eram compatíveis e outras podiam provocar reações graves.

Mas suas consequências ultrapassariam os hospitais.

 

O sangue passou a carregar informação

A partir da descoberta dos grupos sanguíneos, uma nova possibilidade surgiu.

Se as pessoas possuíam diferentes características sanguíneas, uma mancha de sangue poderia conservar alguma dessas características mesmo depois de separada do corpo.

O sangue deixava de ser apenas uma evidência de que algo havia acontecido.

Começava a se transformar em evidência sobre quem poderia estar relacionado àquele vestígio.

Era uma mudança extraordinária.


Leone Lattes entra em cena


Foi então que a descoberta de Landsteiner encontrou a Medicina Legal.

O italiano Leone Lattes, médico e serologista, desenvolveu em 1913 um método para determinar o grupo sanguíneo a partir de manchas de sangue secas.

O chamado teste de Lattes utilizava reações de aglutinação para investigar características do sistema ABO presentes na mancha.

Pela primeira vez, uma mancha que permanecera aparentemente silenciosa podia oferecer uma informação biológica relevante à investigação.

A química havia encontrado o veneno.

Agora, a serologia começava a encontrar uma característica do sangue.

 

A mancha que atravessou o tempo

 

Imagine uma pequena mancha seca.

Para o olhar comum, ela pode parecer apenas uma marca antiga.

Para o investigador treinado, porém, ela pode representar uma pergunta.

Foi sangue humano?

De que grupo?

É compatível com determinado indivíduo?

Pode excluir alguém?

A ciência transformava uma aparência em uma sequência de perguntas verificáveis.

 

Mas havia um limite

 

E aqui está uma distinção fundamental para compreender a história da investigação científica.

O grupo sanguíneo não identificava sozinho uma pessoa.

Se determinada mancha fosse classificada como pertencente ao grupo A, isso não significava que ela necessariamente pertencesse a uma pessoa específica.

Milhões de indivíduos poderiam compartilhar aquela característica.

O valor forense estava, muitas vezes, na capacidade de incluir ou excluir possibilidades, e não de apontar sozinho um indivíduo.

Essa diferença seria fundamental para a evolução posterior da ciência forense.

 

Do grupo ao indivíduo

A descoberta dos grupos sanguíneos abriu uma estrada.

Depois vieram outros marcadores biológicos.

Sistemas sanguíneos adicionais.

Proteínas séricas.

Enzimas.

Antígenos.

E, décadas mais tarde, a genética molecular.

A investigação caminhava lentamente de características compartilhadas por muitos indivíduos para características cada vez mais discriminatórias.

Até chegar ao DNA.

Mas essa história ainda estava distante.

 

O olhar da História

A descoberta do sistema ABO por Landsteiner, no início do século XX, criou a base para aplicações que ultrapassariam a transfusão sanguínea. A utilização de características hereditárias dos grupos sanguíneos em investigação forense e de parentesco começou a ganhar espaço nas décadas seguintes.

O trabalho de Leone Lattes representou um passo importante ao permitir a determinação do grupo ABO em manchas de sangue secas.

 

O olhar da Ciência

Hoje, o sangue pode revelar muito mais do que o grupo ABO.

A ciência forense moderna dispõe de métodos capazes de analisar diferentes componentes biológicos e, quando há material genético adequado, realizar a identificação por perfil de DNA.

Mas é importante compreender a trajetória.

A ciência não saltou diretamente do sangue para o DNA.

Ela percorreu um longo caminho.

Primeiro reconheceu o vestígio.
Depois classificou o sangue.
Depois comparou características.
Finalmente aprendeu a investigar o código genético.

 

O olhar do autor

 

Talvez o mais fascinante nessa história seja perceber que a ciência raramente começa encontrando a resposta.

Ela começa aprendendo a fazer perguntas melhores.

Uma mancha de sangue existia muito antes de Landsteiner.

O que mudou foi o olhar humano diante dela.

Antes:

“Há uma mancha.”

Depois:

“É sangue?”

Mais tarde:

“Qual é o grupo?”

E finalmente:

“Que informação biológica esse vestígio conserva?”

A evolução da investigação científica pode ser resumida justamente assim:

não é apenas aprender a ver o vestígio.
É aprender a perguntar o que ele pode dizer.

 

Legado para a Justiça Contemporânea

Os grupos sanguíneos perderam protagonismo na identificação individual depois do desenvolvimento de métodos genéticos muito mais discriminatórios.

Mas sua importância histórica permanece enorme.

Eles ensinaram à Justiça uma lição que seria repetida inúmeras vezes na história da ciência forense:

um vestígio biológico pode carregar informação sobre a pessoa que o deixou.

A partir dessa descoberta, o corpo humano começou a deixar de ser apenas objeto da Medicina Legal.

Passou a ser também uma fonte de informação para a investigação.

E a próxima revolução seria ainda mais profunda.

Porque, dentro do sangue, existia algo que a ciência ainda não havia aprendido a ler.

O DNA.

 

Para refletir

"O sangue não diz apenas que alguém esteve ali. A ciência aprendeu a perguntar o que mais ele pode revelar."

Elson Mesquita de Araujo

Advogado, jornalista, pesquisador

 

REFERÊNCIAS

  • Karl Landsteiner — trabalhos pioneiros sobre os grupos sanguíneos ABO, 1900–1901.
  • Leone Lattes — desenvolvimento do método de determinação do grupo sanguíneo em manchas, 1913.
  • National Center for Biotechnology Information — história do sistema ABO.
  • Literatura histórica sobre serologia e investigação forense.

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