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8/13/2026

O EXPERIMENTO QUE DESCOBRIU A OBEDIÊNCIA- Milgram e a inquietante capacidade humana de obedecer



Lição da Ciência

"O perigo talvez não esteja apenas naquele que deseja fazer o mal, mas também naquele que aprende a obedecer sem perguntar."

 

A pergunta que ninguém queria fazer

Em 1961, em uma sala da Universidade Yale, Stanley Milgram colocou diante de voluntários uma máquina que parecia capaz de produzir choques elétricos.

Havia um pesquisador de jaleco.

Havia um homem que deveria responder às perguntas.

Havia uma sequência de botões.

E havia uma ordem:

continuar.

Os participantes acreditavam estar participando de uma experiência sobre aprendizagem e memória.

Não sabiam que o verdadeiro objeto do estudo era outro.

Até onde uma pessoa comum obedeceria a uma autoridade?

A pergunta parecia simples.

A resposta mudaria a psicologia social.

E também lançaria uma sombra sobre a maneira como pensamos responsabilidade, autoridade e obediência.

 

A sala onde a consciência foi colocada à prova


O experimento criado por Milgram tinha uma estrutura cuidadosamente elaborada.

O participante recebia o papel de "professor".

Outra pessoa, apresentada como "aprendiz", deveria responder às perguntas.

A cada erro, o participante era instruído a aumentar a intensidade do suposto choque elétrico.

O aparelho possuía uma série de níveis que chegava até 450 volts.

O participante não sabia que o aprendiz era, na realidade, um colaborador do experimento e que os choques não eram verdadeiros.

Mas ele acreditava que eram.

A cada aumento de intensidade, o aprendiz demonstrava maior sofrimento.

Protestava.

Pedia para interromper.

Em determinado momento, deixava de responder.

E o pesquisador dizia, em essência:

continue.

O inesperado

Antes do experimento, Milgram consultou colegas e especialistas sobre o que imaginavam que aconteceria.

A previsão era de que apenas uma pequena parcela dos participantes chegaria ao nível máximo.

A realidade foi muito mais perturbadora.

Na condição experimental mais conhecida, 26 dos 40 participantes — 65% — chegaram ao nível máximo de 450 volts.

Isso não significava que todos obedeceram tranquilamente.

Pelo contrário.

Muitos demonstraram sinais evidentes de tensão.

Hesitaram.

Questionaram o pesquisador.

Demonstraram desconforto.

Alguns riram nervosamente.

Outros queriam interromper.

Mas uma parcela significativa continuou.

A descoberta não foi simplesmente:

"as pessoas obedecem."

Foi muito mais inquietante:

pessoas comuns podem continuar obedecendo mesmo quando a ordem entra em conflito com aquilo que acreditam estar fazendo

O homem de jaleco

O pesquisador não ameaçava os participantes.

Não gritava.

Não precisava.

Sua autoridade estava incorporada à situação.

Ele representava a instituição.

Representava a ciência.

Parecia saber o que estava fazendo.

Quando o participante demonstrava preocupação, recebia respostas padronizadas que o incentivavam a prosseguir.

A situação produzia uma transformação psicológica importante.

A pergunta deixava de ser:

"Eu quero fazer isso?"

E começava a ser:

"O que esperam que eu faça?"

É uma diferença aparentemente pequena.

Mas pode mudar tudo.

 


Quando a responsabilidade parece mudar de lugar

Talvez a parte mais profunda do experimento esteja justamente aqui.

O participante continuava apertando os botões.

Mas começava a perceber a própria ação como consequência da ordem de outra pessoa.

A responsabilidade parecia deslocar-se.

"Eu apenas estou seguindo as instruções."

Essa frase atravessa a história humana.

Ela apareceu em contextos muito diferentes.

Na guerra.

Nas instituições.

Nas burocracias.

Nas organizações.

Nas prisões.

Nos regimes autoritários.

Nos ambientes profissionais.

E em situações cotidianas nas quais alguém prefere obedecer a questionar.

Milgram não descobriu a origem do mal.

Descobriu algo mais desconfortável:

a autoridade pode alterar a maneira como uma pessoa percebe sua própria responsabilidade.

 

O experimento e o século XX

Milgram não realizou sua pesquisa no vazio.

O mundo ainda carregava as cicatrizes da Segunda Guerra Mundial.

Os julgamentos de Nuremberg haviam colocado diante da humanidade uma questão difícil:

como pessoas comuns participam de sistemas capazes de produzir atrocidades?

Uma das respostas apresentadas por alguns acusados era conhecida:

"Eu apenas obedecia ordens."

Milgram queria investigar experimentalmente uma dimensão psicológica dessa questão.

Até que ponto uma autoridade poderia levar uma pessoa comum a realizar algo que, em circunstâncias normais, consideraria errado?

Seu experimento não respondeu sozinho às grandes questões históricas.

Mas demonstrou que a obediência à autoridade poderia ser estudada empiricamente.

E isso foi revolucionário.

 

Mas Milgram não descobriu "monstros"

Essa distinção é essencial.

Seria fácil olhar para o experimento e concluir:

"As pessoas são más."

Não é essa a lição.

Muitos participantes demonstraram intenso sofrimento enquanto obedeciam.

Isso significa que havia conflito entre aquilo que estavam fazendo e aquilo que sentiam.

O fenômeno é justamente esse conflito.

A pessoa pode saber que algo está errado e, ainda assim, continuar.

Pode sentir desconforto e continuar.

Pode desejar parar e continuar.

Pode até acreditar que está fazendo algo moralmente questionável e continuar porque uma autoridade assumiu a condução da situação.

A questão deixa de ser simplesmente moral.

Passa a ser psicológica.

 

O poder da situação

Uma das grandes contribuições da psicologia social foi mostrar que não podemos compreender o comportamento humano apenas olhando para a personalidade individual.

A situação importa.

Quem está presente?

Quem possui autoridade?

Quais são as regras?

Existe uma instituição por trás da ordem?

As pessoas ao redor também obedecem?

Existe possibilidade de recusa?

Qual é o custo psicológico de dizer não?

Essas perguntas podem modificar profundamente o comportamento.

O indivíduo continua sendo responsável por seus atos.

Mas compreender as forças situacionais ajuda a compreender como determinadas condutas se tornam possíveis.

 

A obediência não é submissão automática

É importante evitar outra simplificação.

Milgram não demonstrou que todos obedecem.

Nem que a autoridade sempre vence.

Nem que o ser humano é naturalmente incapaz de resistir.

Os resultados variaram conforme as condições do experimento.

Quando a autoridade estava mais distante, quando havia outras pessoas recusando-se a obedecer ou quando o participante percebia maior autonomia, os níveis de obediência diminuíam.

Isso é fundamental.

Porque significa que o contexto também pode favorecer a resistência.

A mesma pessoa que obedece em determinada circunstância pode recusar-se em outra.

 

O poder de um primeiro passo

Existe ainda uma característica inquietante das situações de obediência:

raramente começamos pelo extremo.

Começamos com algo pequeno.

Depois outro passo.

Depois outro.

A pessoa pode aceitar uma primeira instrução aparentemente insignificante.

Quando percebe, já está envolvida em uma sequência de decisões.

O primeiro passo torna o segundo mais fácil.

O segundo normaliza o terceiro.

E assim sucessivamente.

A história humana conhece muitos exemplos de sistemas que não começaram pelo absurdo.

Começaram pelo aparentemente aceitável.

 

O Direito diante da autoridade

É impossível estudar o experimento de Milgram sem pensar no Direito.

Porque o Estado possui autoridade.

O juiz possui autoridade.

A polícia possui autoridade.

O professor possui autoridade.

O médico possui autoridade.

O chefe possui autoridade.

As instituições possuem autoridade.

A autoridade é necessária.

Sem ela, uma sociedade organizada seria difícil de imaginar.

Mas a autoridade precisa encontrar um limite.

E esse limite é justamente onde começa a responsabilidade.

Uma ordem não transforma automaticamente uma conduta injusta em uma conduta justa.

Essa é uma das grandes lições da experiência humana.

 

A obediência e o Estado de Direito

O Estado de Direito depende de uma combinação delicada:

autoridade e limite.

Precisamos obedecer às regras legítimas.

Mas também precisamos possuir mecanismos para questionar ordens ilegítimas.

Precisamos de instituições.

Mas também precisamos de controle sobre as instituições.

Precisamos de autoridade.

Mas também precisamos de responsabilidade.

Precisamos de obediência.

Mas precisamos preservar a capacidade de dizer:

não.

 

O verdadeiro experimento

Talvez o experimento de Milgram tenha deixado uma pergunta maior do que aquela que pretendia responder.

A pergunta não é apenas:

"Até onde você obedeceria?"

É:

"Em que momento você perceberia que precisa parar?"

Essa pergunta é muito mais difícil.

Porque, na vida real, não existe uma campainha anunciando o momento em que ultrapassamos um limite moral.

Não existe uma placa dizendo:

daqui em diante, você será responsável pelo que acontecer.

Precisamos reconhecer esse momento por nós mesmos.

 

A coragem de interromper

Talvez a verdadeira lição do experimento esteja menos naqueles que obedeceram e mais na possibilidade de resistência.

Dizer "não" exige reconhecer a própria responsabilidade.

Exige aceitar o desconforto.

Exige suportar a desaprovação.

Exige, algumas vezes, enfrentar uma instituição.

A obediência pode ser psicologicamente confortável porque transfere parte da responsabilidade para quem deu a ordem.

A resistência faz o contrário.

Ela devolve a responsabilidade ao indivíduo.

 

O olhar da Ciência

O trabalho de Milgram foi extremamente influente, mas também gerou intenso debate metodológico e ético.

Hoje, seus experimentos são discutidos não apenas pelos resultados, mas também pelas condições psicológicas impostas aos participantes.

Os participantes foram submetidos a níveis significativos de estresse e acreditavam estar causando sofrimento a outra pessoa.

As normas contemporâneas de pesquisa com seres humanos são muito mais rigorosas.

Essa dimensão também faz parte da história.

A ciência não pode estudar a condição humana ignorando a dignidade humana.

O conhecimento também precisa obedecer a limites.

E existe uma ironia poderosa nisso.

O próprio estudo sobre obediência ajudou a alimentar discussões sobre os limites que uma autoridade científica deve respeitar.

 

O paradoxo de Milgram

Aqui está talvez a maior ironia.

Milgram queria compreender por que pessoas obedecem.

Seu experimento também ajudou a ensinar uma lição sobre quando não devemos obedecer.

Porque a autoridade científica não está acima da ética.

A autoridade jurídica não está acima da Constituição.

A autoridade política não está acima da lei.

A autoridade profissional não está acima da dignidade humana.

Toda autoridade legítima precisa possuir limites.

 

O olhar do autor

Existe uma pergunta que me acompanha desde que conheci a experiência de Milgram:

quantas coisas fazemos porque realmente acreditamos nelas e quantas fazemos porque alguém nos disse que deveríamos fazê-las?

Talvez a resposta seja desconfortável.

Somos muito mais influenciáveis do que gostamos de admitir.

A independência que imaginamos possuir pode diminuir diante de uma autoridade convincente.

E é justamente por isso que a consciência precisa ser exercitada.

Pensar é uma forma de resistência.

Questionar é uma forma de responsabilidade.

Dizer "não" pode ser, em determinadas circunstâncias, um ato de coragem moral.

Porque obedecer é fácil quando todos obedecem.

Difícil é permanecer de pé quando a ordem manda ajoelhar.

 

Legado para a Justiça

O experimento de Milgram não pode ser utilizado como explicação única para crimes, guerras ou atrocidades.

O comportamento humano é muito mais complexo.

Mas sua contribuição permanece poderosa:

autoridade, contexto e pressão social podem influenciar profundamente decisões individuais.

Para o Direito, isso significa que compreender o comportamento humano exige mais do que perguntar:

"O que essa pessoa fez?"

É preciso também compreender:

"Em que contexto ela fez?"

"Quem exercia influência sobre ela?"

"Que alternativas ela percebia possuir?"

E, principalmente:

"Em que momento ela poderia ter escolhido diferente?"

 

Para refletir

"A civilização não depende apenas de ensinar as pessoas a obedecer. Depende também de ensiná-las quando devem dizer não."

 

EPÍLOGO DO CAPÍTULO

A investigação havia aprendido que uma pessoa pode confessar aquilo que não fez.

Agora descobria que uma pessoa pode fazer aquilo que jamais imaginaria fazer — simplesmente porque alguém em posição de autoridade ordenou.

Mas havia uma pergunta ainda mais perturbadora.

Se a autoridade pode influenciar aquilo que fazemos...

será que nossos próprios olhos podem influenciar aquilo que acreditamos ter visto?

A próxima fronteira não estaria mais no interrogatório.

Estaria dentro da percepção.

E a ciência estava prestes a descobrir que ver não significa necessariamente compreender — e lembrar não significa necessariamente ter visto.

Era chegada a hora de entrar no território das falsas memórias, do reconhecimento de suspeitos e dos erros produzidos pelo próprio cérebro.

Elson Mesquita de Araujo

Advogado, jornalista, escritor.  pesquisador

 


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