Lição da Ciência
"O perigo talvez não esteja apenas
naquele que deseja fazer o mal, mas também naquele que aprende a obedecer sem
perguntar."
A pergunta
que ninguém queria fazer
Em 1961, em uma sala da Universidade Yale,
Stanley Milgram colocou diante de voluntários uma máquina que parecia capaz de
produzir choques elétricos.
Havia um pesquisador de jaleco.
Havia um homem que deveria responder às
perguntas.
Havia uma sequência de botões.
E havia uma ordem:
continuar.
Os participantes acreditavam estar
participando de uma experiência sobre aprendizagem e memória.
Não sabiam que o verdadeiro objeto do estudo
era outro.
Até onde uma pessoa comum obedeceria a uma
autoridade?
A pergunta parecia simples.
A resposta mudaria a psicologia social.
E também lançaria uma sombra sobre a maneira
como pensamos responsabilidade, autoridade e obediência.
A sala
onde a consciência foi colocada à prova
O experimento criado por Milgram tinha uma
estrutura cuidadosamente elaborada.
O participante recebia o papel de
"professor".
Outra pessoa, apresentada como
"aprendiz", deveria responder às perguntas.
A cada erro, o participante era instruído a
aumentar a intensidade do suposto choque elétrico.
O aparelho possuía uma série de níveis que
chegava até 450 volts.
O participante não sabia que o aprendiz era,
na realidade, um colaborador do experimento e que os choques não eram
verdadeiros.
Mas ele acreditava que eram.
A cada aumento de intensidade, o aprendiz
demonstrava maior sofrimento.
Protestava.
Pedia para interromper.
Em determinado momento, deixava de responder.
E o pesquisador dizia, em essência:
continue.
O
inesperado
Antes do experimento, Milgram consultou
colegas e especialistas sobre o que imaginavam que aconteceria.
A previsão era de que apenas uma pequena
parcela dos participantes chegaria ao nível máximo.
A realidade foi muito mais perturbadora.
Na condição experimental mais conhecida, 26
dos 40 participantes — 65% — chegaram ao nível máximo de 450 volts.
Isso não significava que todos obedeceram
tranquilamente.
Pelo contrário.
Muitos demonstraram sinais evidentes de
tensão.
Hesitaram.
Questionaram o pesquisador.
Demonstraram desconforto.
Alguns riram nervosamente.
Outros queriam interromper.
Mas uma parcela significativa continuou.
A descoberta não foi simplesmente:
"as pessoas obedecem."
Foi muito mais inquietante:
pessoas comuns podem continuar obedecendo
mesmo quando a ordem entra em conflito com aquilo que acreditam estar fazendo
O homem
de jaleco
O pesquisador não ameaçava os participantes.
Não gritava.
Não precisava.
Sua autoridade estava incorporada à situação.
Ele representava a instituição.
Representava a ciência.
Parecia saber o que estava fazendo.
Quando o participante demonstrava preocupação,
recebia respostas padronizadas que o incentivavam a prosseguir.
A situação produzia uma transformação
psicológica importante.
A pergunta deixava de ser:
"Eu quero fazer isso?"
E começava a ser:
"O que esperam que eu faça?"
É uma diferença aparentemente pequena.
Mas pode mudar tudo.
Quando a
responsabilidade parece mudar de lugar
Talvez a parte mais profunda do experimento
esteja justamente aqui.
O participante continuava apertando os botões.
Mas começava a perceber a própria ação como
consequência da ordem de outra pessoa.
A responsabilidade parecia deslocar-se.
"Eu apenas estou seguindo as
instruções."
Essa frase atravessa a história humana.
Ela apareceu em contextos muito diferentes.
Na guerra.
Nas instituições.
Nas burocracias.
Nas organizações.
Nas prisões.
Nos regimes autoritários.
Nos ambientes profissionais.
E em situações cotidianas nas quais alguém
prefere obedecer a questionar.
Milgram não descobriu a origem do mal.
Descobriu algo mais desconfortável:
a autoridade pode alterar a maneira como uma
pessoa percebe sua própria responsabilidade.
O
experimento e o século XX
Milgram não realizou sua pesquisa no vazio.
O mundo ainda carregava as cicatrizes da
Segunda Guerra Mundial.
Os julgamentos de Nuremberg haviam colocado
diante da humanidade uma questão difícil:
como pessoas comuns participam de sistemas
capazes de produzir atrocidades?
Uma das respostas apresentadas por alguns
acusados era conhecida:
"Eu apenas obedecia ordens."
Milgram queria investigar experimentalmente
uma dimensão psicológica dessa questão.
Até que ponto uma autoridade poderia levar uma
pessoa comum a realizar algo que, em circunstâncias normais, consideraria
errado?
Seu experimento não respondeu sozinho às
grandes questões históricas.
Mas demonstrou que a obediência à autoridade
poderia ser estudada empiricamente.
E isso foi revolucionário.
Mas
Milgram não descobriu "monstros"
Essa distinção é essencial.
Seria fácil olhar para o experimento e
concluir:
"As pessoas são más."
Não é essa a lição.
Muitos participantes demonstraram intenso
sofrimento enquanto obedeciam.
Isso significa que havia conflito entre aquilo
que estavam fazendo e aquilo que sentiam.
O fenômeno é justamente esse conflito.
A pessoa pode saber que algo está errado e,
ainda assim, continuar.
Pode sentir desconforto e continuar.
Pode desejar parar e continuar.
Pode até acreditar que está fazendo algo
moralmente questionável e continuar porque uma autoridade assumiu a condução da
situação.
A questão deixa de ser simplesmente moral.
Passa a ser psicológica.
O poder
da situação
Uma das grandes contribuições da psicologia
social foi mostrar que não podemos compreender o comportamento humano apenas
olhando para a personalidade individual.
A situação importa.
Quem está presente?
Quem possui autoridade?
Quais são as regras?
Existe uma instituição por trás da ordem?
As pessoas ao redor também obedecem?
Existe possibilidade de recusa?
Qual é o custo psicológico de dizer não?
Essas perguntas podem modificar profundamente
o comportamento.
O indivíduo continua sendo responsável por
seus atos.
Mas compreender as forças situacionais ajuda a
compreender como determinadas condutas se tornam possíveis.
A
obediência não é submissão automática
É importante evitar outra simplificação.
Milgram não demonstrou que todos obedecem.
Nem que a autoridade sempre vence.
Nem que o ser humano é naturalmente incapaz de
resistir.
Os resultados variaram conforme as condições
do experimento.
Quando a autoridade estava mais distante,
quando havia outras pessoas recusando-se a obedecer ou quando o participante
percebia maior autonomia, os níveis de obediência diminuíam.
Isso é fundamental.
Porque significa que o contexto também pode
favorecer a resistência.
A mesma pessoa que obedece em determinada
circunstância pode recusar-se em outra.
O poder
de um primeiro passo
Existe ainda uma característica inquietante
das situações de obediência:
raramente começamos pelo extremo.
Começamos com algo pequeno.
Depois outro passo.
Depois outro.
A pessoa pode aceitar uma primeira instrução
aparentemente insignificante.
Quando percebe, já está envolvida em uma
sequência de decisões.
O primeiro passo torna o segundo mais fácil.
O segundo normaliza o terceiro.
E assim sucessivamente.
A história humana conhece muitos exemplos de
sistemas que não começaram pelo absurdo.
Começaram pelo aparentemente aceitável.
O
Direito diante da autoridade
É impossível estudar o experimento de Milgram
sem pensar no Direito.
Porque o Estado possui autoridade.
O juiz possui autoridade.
A polícia possui autoridade.
O professor possui autoridade.
O médico possui autoridade.
O chefe possui autoridade.
As instituições possuem autoridade.
A autoridade é necessária.
Sem ela, uma sociedade organizada seria
difícil de imaginar.
Mas a autoridade precisa encontrar um limite.
E esse limite é justamente onde começa a
responsabilidade.
Uma ordem não transforma automaticamente uma
conduta injusta em uma conduta justa.
Essa é uma das grandes lições da experiência
humana.
A
obediência e o Estado de Direito
O Estado de Direito depende de uma combinação
delicada:
autoridade e limite.
Precisamos obedecer às regras legítimas.
Mas também precisamos possuir mecanismos para
questionar ordens ilegítimas.
Precisamos de instituições.
Mas também precisamos de controle sobre as
instituições.
Precisamos de autoridade.
Mas também precisamos de responsabilidade.
Precisamos de obediência.
Mas precisamos preservar a capacidade de
dizer:
não.
O
verdadeiro experimento
Talvez o experimento de Milgram tenha deixado
uma pergunta maior do que aquela que pretendia responder.
A pergunta não é apenas:
"Até onde você obedeceria?"
É:
"Em que momento você perceberia que
precisa parar?"
Essa pergunta é muito mais difícil.
Porque, na vida real, não existe uma campainha
anunciando o momento em que ultrapassamos um limite moral.
Não existe uma placa dizendo:
daqui em diante, você será responsável pelo
que acontecer.
Precisamos reconhecer esse momento por nós
mesmos.
A
coragem de interromper
Talvez a verdadeira lição do experimento
esteja menos naqueles que obedeceram e mais na possibilidade de resistência.
Dizer "não" exige reconhecer a
própria responsabilidade.
Exige aceitar o desconforto.
Exige suportar a desaprovação.
Exige, algumas vezes, enfrentar uma
instituição.
A obediência pode ser psicologicamente
confortável porque transfere parte da responsabilidade para quem deu a ordem.
A resistência faz o contrário.
Ela devolve a responsabilidade ao indivíduo.
O olhar
da Ciência
O trabalho de Milgram foi extremamente
influente, mas também gerou intenso debate metodológico e ético.
Hoje, seus experimentos são discutidos não
apenas pelos resultados, mas também pelas condições psicológicas impostas aos
participantes.
Os participantes foram submetidos a níveis
significativos de estresse e acreditavam estar causando sofrimento a outra
pessoa.
As normas contemporâneas de pesquisa com seres
humanos são muito mais rigorosas.
Essa dimensão também faz parte da história.
A ciência não pode estudar a condição humana
ignorando a dignidade humana.
O conhecimento também precisa obedecer a
limites.
E existe uma ironia poderosa nisso.
O próprio estudo sobre obediência ajudou a
alimentar discussões sobre os limites que uma autoridade científica deve
respeitar.
O
paradoxo de Milgram
Aqui está talvez a maior ironia.
Milgram queria compreender por que pessoas
obedecem.
Seu experimento também ajudou a ensinar uma
lição sobre quando não devemos obedecer.
Porque a autoridade científica não está acima
da ética.
A autoridade jurídica não está acima da
Constituição.
A autoridade política não está acima da lei.
A autoridade profissional não está acima da
dignidade humana.
Toda autoridade legítima precisa possuir
limites.
O olhar
do autor
Existe uma pergunta que me acompanha desde que
conheci a experiência de Milgram:
quantas coisas fazemos porque realmente
acreditamos nelas e quantas fazemos porque alguém nos disse que deveríamos
fazê-las?
Talvez a resposta seja desconfortável.
Somos muito mais influenciáveis do que
gostamos de admitir.
A independência que imaginamos possuir pode
diminuir diante de uma autoridade convincente.
E é justamente por isso que a consciência
precisa ser exercitada.
Pensar é uma forma de resistência.
Questionar é uma forma de responsabilidade.
Dizer "não" pode ser, em
determinadas circunstâncias, um ato de coragem moral.
Porque obedecer é fácil quando todos obedecem.
Difícil é permanecer de pé quando a ordem
manda ajoelhar.
Legado
para a Justiça
O experimento de Milgram não pode ser
utilizado como explicação única para crimes, guerras ou atrocidades.
O comportamento humano é muito mais complexo.
Mas sua contribuição permanece poderosa:
autoridade, contexto e pressão social podem
influenciar profundamente decisões individuais.
Para o Direito, isso significa que compreender
o comportamento humano exige mais do que perguntar:
"O que essa pessoa fez?"
É preciso também compreender:
"Em que contexto ela fez?"
"Quem exercia influência sobre ela?"
"Que alternativas ela percebia
possuir?"
E, principalmente:
"Em que momento ela poderia ter escolhido
diferente?"
Para
refletir
"A civilização não depende apenas de
ensinar as pessoas a obedecer. Depende também de ensiná-las quando devem dizer
não."
EPÍLOGO
DO CAPÍTULO
A investigação havia aprendido que uma pessoa
pode confessar aquilo que não fez.
Agora descobria que uma pessoa pode fazer
aquilo que jamais imaginaria fazer — simplesmente porque alguém em posição de
autoridade ordenou.
Mas havia uma pergunta ainda mais
perturbadora.
Se a autoridade pode influenciar aquilo que
fazemos...
será que nossos próprios olhos podem
influenciar aquilo que acreditamos ter visto?
A próxima fronteira não estaria mais no
interrogatório.
Estaria dentro da percepção.
E a ciência estava prestes a descobrir que ver
não significa necessariamente compreender — e lembrar não significa
necessariamente ter visto.
Era chegada a hora de entrar no território das
falsas memórias, do reconhecimento de suspeitos e dos erros produzidos pelo
próprio cérebro.
Elson Mesquita de Araujo
Advogado, jornalista, escritor. pesquisador
