8/01/2014

A verdade não tem dono.


“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Sempre que  ouço, ou leio em algum lugar essa sacrossanta  palavra nascida do vocabulário celeste  de Jesus,  me inquieto,  pelo menos por alguns instantes, sobre a que verdade o Cristo se refere. Precisaria ser teólogo para compreender o sentido teleológico dessa assertiva cristã?  Não sei.   Como estou  muito distante da teologia  não me arriscarei   a mergulhar  nessa   “Verdade   Santa”,   que conforme  o filho de Deus liberta. 
A verdade, tema da coluna de hoje, é a verdade que  eu chamaria  de profana, aquela que grande parte das pessoas se apropria, e ao invés de se libertar ficam cada vez mais presas.  A verdade manipulada,  que  escraviza  e reproduz escravidão. 
Verdade implica dizer ausência de mentira,  aquilo  que é  sincero;  definição cada vez mais distante da sua origem uma vez que na sociedade moderna a  verdade  é loteada com cada um se apossando da sua. Como diria, mesmo com certo exagero,   o escritor José Saramago  “o tempo das verdades plurais acabou. Vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias”
 É uma característica natural de nós, enquanto humanos, buscarmos permanentemente a verdade,  e assim  conseguirmos, quando há esforço e interesse,  distinguirmos o verdadeiro do  falso.  O problema é o sentimento mórbido da  posse da verdade, que é quando alguém define  a sua  como a mais absoluta delas.  É  quando surgem a intolerância,  o ódio, a morte,  e o aparecimento da mentira para, irônica e falsamente, se  preservar  uma  verdade, o  poder, ou outro mecanismo de controle qualquer.
Nesse universo da verdade profana  “a  verdade  verdadeira” que interessa  é a minha, as outras nada valem, não têm valor. A minha é Deus a dos outros é o diabo.  A minha constrói, a dos outros destrói.  
Fiquemos atentos então  a todas as verdades nos impostas todos os dias, já que como raciocina Vergílio Ferreira, “ uma verdade só é verdade quando levada às ultimas consequências.  Até lá não é uma verdade”
 O escritor  Agostinho Silva  completa ao ensinar que  “deve-se estar atento às ideias novas que vêm dos outros. Nunca julgar que aquilo em que se acredita é efetivamente a verdade. Fujo da verdade como tudo, porque acho que quem tem a verdade num bolso tem sempre uma inquisição do outro lado pronta para atacar alguém; então livro-me de toda espécie de poder- isso, sobretudo”
As linhas da coluna de hoje chegam ao fim e  concluímos que, o que vemos  hoje no tecido social é uma luta renhida pela hegemonia das verdades proclamadas todos os dias nos quatro cantos do mundo pelos mais diversos  meios; seja pelos múltiplos, e ágeis  veículos de comunicação, seja pelas igrejas, partidos políticos, associações, sociedades, tribos, castas etc.
Essa luta pelo controle das verdades que tentam se impor  só justificaria pela mantença ou a busca pelo poder, e nesse caso, para os que se constituem “donos da verdade”,  valeria a máxima maquiavélica de que os fins justificariam os meios.
A consequência dessas batalhas são os conflitos, que ao meu sentir, não são no todo negativos, uma vez que pode haver convergências entre eles e nesse processo convergente o aparecimento de outras verdades que possam contribuir para a harmonia social. 
O conflito entre as verdades profanas poderiam render grandes frutos se cada um, mesmo discordando, respeitasse as verdades entronizadas nos outros, até porque podemos até nos apossar das ditas, mas jamais seremos proprietários delas. A verdade, seja ela qual for, não tem dono.