12/01/2016

O convergente e o divergente, ou a livre manifestação do pensamento


Nada mais salutar na nossa jovem democracia do que a liberdade de expor o pensamento por intermédio  das suas mais diversas formas de manifestação. Liberdade essa fortalecida ainda mais com a explosão do fenômeno das redes sociais. Com 143 caracteres, ou menos, hoje é possível resumir para o mundo aquilo que se pensa sobre qualquer assunto. Dependendo do que e de quem seja o autor da frase, a resposta, positiva ou negativa, pode ser imediata e provocar, ou não, uma “revolução” e mudar os rumos estabelecidos. Tem sido assim no Brasil e nos países livres e nos quase livres.

O pensamento pode ser lido e ignorado, aplaudido ou criticado, agressivo ou amável, ofensivo, ou não, mas o autor hoje, no Brasil, conta com o direito de exercê-lo mesmo com o risco de vir a responder judicialmente por ele como está escrito lá na nossa Constituição.

Até pouco tempo a prerrogativa de dizer livremente o que bem se entendia era impensável, como bem lembrou durante um  evento acadêmico sobre o   o golpe militar no Brasil o ex- juiz de direito Marlon Jacinto Reis. Pensar diferente do poder estabelecido poderia custar a vida de uma pessoa, ressaltou o magistrado ao exaltar a liberdade que o cidadão brasileiro tem de poder se expressar livremente sem censura ou do risco de vir a ser punido até com a morte, como era comum durante os 21 anos da Ditadura Militar. Talvez não tivesse sido diferente caso tratasse de uma ditadura de esquerda.

A história comprova a cada dia que ditadura, seja de direita ou esquerda, não serve para a humanidade. No Brasil de hoje, por incrível que possa ser, o patrulhamento sobre o que se diz não vem, pelo menos oficialmente, do aparelho estatal, mas de determinados grupos, ou indivíduos que ao discordar de um, ou outro ponto de vista, não partem para o embate de ideias sendo a opção pela calúnia, injúria e difamação.

Se há um pensamento comum e convergente, surgem os deuses, se aparece um pensamento divergente, rapidamente  os deuses são reduzidos a demônios. Não há respeito pelo que o outro pensa ou defende. A regra é agredir para desqualificar.

O poeta e ensaísta francês Fraçois Marie Arouet (1694-1778), mais conhecido por Voltaire, no seu tempo, já se preocupava com o tema da liberdade de expressão. Teria sido dele, embora haja controvérsias, a tão decantada frase “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”. Dúvida quanto à autoria à parte, tal citação, tornou-se ao longo dos anos lema da luta pela liberdade de expressão.

O mundo mudou, está mais rápido, mais ágil no veicular das notícias, teorias, teses, verdades prontas, mentiras; projetos e ideologias, o que fatalmente obriga ao surgimento de um cidadão cada vez mais crítico e capaz de filtrar o que vê, ouve e o que lê nesse universo virtual para não se deixar contaminar por ideologias contrárias aos ideais democráticos.

Numa democracia é preciso que as pessoas tenham ao seu dispor e cultivem a pluralidade de ideias e pensamentos, e delas tirem o proveito necessário para melhorar a vida em sociedade. Não se pode correr o risco do fortalecimento do pensamento único, pois é assim que surgem os déspotas, os tiranos, os ditadores capazes de atrocidades para se imortalizarem no poder. Numa democracia fortalecida pela liberdade da livre manifestação do pensamento e pelo cultivo da pluralidade de ideias, o mal certamente terá mais dificuldade de prosperar.