1/24/2016

AO MESTRE COM CARINHO

Professor José Geraldo, MESTRE JOÃO, Elson Araújo
(Uma homenagem ao  nosso "Mestre João")

Um psicólogo americano,  não recordo o nome agora, teria dito em uma de suas obras  que “a maior ânsia do ser humano é a vontade de ser reconhecido”.  Ao raciocinar sobre essa observação, que certamente não deve ter sido dita à toa, percebo que essa é uma verdade inquestionável.  Por “mais soberano ou mais simplória que a pessoa seja lá no íntimo ela deseja ser reconhecida por aquilo que faz ou pela sua trajetória de vida. Avalio ser esse dispositivo das relações humanas um dos importantes ingredientes do “ cardápio que alimenta a alma” e fortalece o viver em  sociedade. 

Na pluralidade do “ ser humano”  acumula-se  inúmeras competências.  Ouso dizer que até os loucos  no seu mundo particular costumam ser competentes em algumas das coisas que fazem. Há loucos que cantam, pintam , dançam e falam muito bem - melhor até que muitos que se apresentam com um  juízo perfeito - . Se os loucos, num lampejo de lucidez sentem-se felizes quando distinguidos - seja com um aplauso, um sorriso, um mimo ou outro gesto qualquer -  imagine  os  potencialmente conscientes ?

Dito isto, é com total capacidade de consciência  que na coluna deste domingo   ressalto  a figura  de um cidadão simples no andar, no falar no seu,  SER diário  presente há 55 anos no Maranhão;  35 deles  só em Imperatriz .  Embora não seja “ filho legítimo” ou seja,  não tenha  nascido nas barrancas do Rio Tocantins,  há muito esse  artífice da arte de  fabricar e recuperar sapatos se incorporou ao quotidiano  da cidade  não só pela sua arte, tão bem executada,  mas  pelo “ emblema”  que se tornou quando o assunto reside na articulação, visão e conselhos  políticos, e não políticos enfim, dicas sábias de quem já acumula  “ algumas dezenas de janeiros”.

Com uma educação nata, um português impecável, segundo ele, apreendido pelo hábito da leitura e no meio em que sempre viveu, o nosso  admirável  João Alves Peixoto o popular “ Mestre João”, que se escolarizou somente até 6ª  série, costuma ensinar que é “ conversando que a gente  aprende e que o ser humano de fato é produto do meio” . 

O Mestre João mora numa humilde residência na Rua Luís Domingues, entre as Ruas Pará e Maranhão, local onde mantém aberta sua oficina.   Pelo ofício com o qual se mantém há anos é grande, principalmente agora em período de crise, o número de clientes seja para “colar o sapato, pôr uma fivela na sandália importada ou,  mesmo recuperar a mochila escolar já carcomida pela ação do tempo mas que nas mãos do mestre pode durar mais um “cadinho”  de tempo.

 A Oficina do Mestre João não é conhecida apenas pelos “milagres” que realiza na recuperação dos  artefatos de couro ou sintéticos,  o lugar é famoso  também por receber do aspirante à vida pública, até o mais experiente político; do mais simples operário à maior autoridade do Estado como o ex-governador Jackson Lago, de quem  o Mestre era amigo desde o tempo em que ambos moravam em Bacabal. “Recebi  também muito aqui em casa o  hoje prefeito  Madeira quando ele era deputado, um amigo de longas datas”  revela.

Ao ser questionado sobre essa capacidade de atrair tanta gente  para as chamadas resenhas ou mesmo para um simples aconselhamento o mestre respondeu: “ talvez seja uma espécie de missão. Todos nós temos um chamado. Talvez seja esse, o   meu”

Assim é  o Mestre João,  casado há 45 anos com a dona Maria Édina. Um cearense nascido no Juazeiro em Junho de 1934, que  cansado  de ser maltratado por sua família originária, aos nove  anos de idade  fugiu de casa para não mais voltar e que se apaixonou pelo Maranhão e mais ainda pela cidade de Imperatriz.    


“Sou  fugido até hoje”, filosofa ele calmamente enquanto recupera o solado de um sapato sob o olhar curioso de mais um cliente que acabara de chegar com uma mochila sem o fecho.