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1/07/2026

Quando o Direito vira arena e a Constituição entra em disputa


ElsonMAraujo 

O Brasil chega a 2026 com uma singularidade inquietante: não é a política que está judicializada apenas  é o próprio futuro do país que passou a ser decidido nos tribunais. Em ano eleitoral, sob tensão institucional permanente, o Direito deixou de ser instrumento de estabilidade para se transformar no principal campo de batalha do poder.

Não se trata de retórica alarmista. Trata-se de constatação.

Reformas estruturais avançam, sim. Mas avançam sob o ruído constante da judicialização, da insegurança regulatória e da disputa aberta entre Poderes. O resultado é um país que muda muito, decide pouco e litiga demais.

A reforma tributária: promessa de racionalidade, risco de frustração

A Emenda Constitucional nº 132 foi saudada como a grande virada do sistema tributário nacional. E, de fato, encerra um ciclo histórico. Mas a experiência brasileira ensina: o problema nunca foi apenas o texto constitucional, e sim a sua execução.

A transição de créditos, a definição da cesta básica nacional e os regimes especiais já se tornaram terreno fértil para disputas administrativas e judiciais. O risco é evidente: transformar a tão anunciada simplificação em uma nova indústria do contencioso.

Se isso ocorrer, a reforma não fracassará por falha conceitual, mas por incapacidade institucional de conter o litígio como método de governança.

O novo Código Civil e a tentação de legislar sobre o indizível

O projeto do novo Código Civil tenta responder a um mundo que mudou rápido demais. Patrimônio digital, vínculos afetivos plurais, responsabilidade em ambientes virtuais. Tudo legítimo. Tudo necessário.

Mas há um perigo silencioso: transferir ao texto legal aquilo que deveria ser amadurecido socialmente e estabilizado jurisprudencialmente. Código demais pode gerar liberdade de menos. Norma excessiva, em tempos líquidos, costuma envelhecer mal.

O Direito Civil precisa oferecer segurança, não ilusão de controle total.

Inteligência Artificial: o medo regulando antes da razão

A regulação da inteligência artificial revela um velho vício nacional: legislar sob o impacto do medo. O debate sobre sistemas de alto risco, responsabilidade civil e transparência algorítmica é legítimo, mas corre o risco de importar modelos estrangeiros sem a devida adaptação institucional.

Criar regras sem capacidade real de fiscalização é produzir norma simbólica , e norma simbólica enfraquece o Direito.

Marco temporal: quando a Constituição vira território em disputa

O embate entre STF e Congresso sobre a demarcação de terras indígenas não é apenas jurídico. É um choque direto sobre quem dá a última palavra constitucional no Brasil.

Leis aprovadas para contornar decisões da Corte não fortalecem a democracia; tensionam-na. Decisões judiciais sem diálogo institucional também não constroem estabilidade.

O resultado é um país suspenso, juridicamente instável, observado com cautela por parceiros internacionais e investidores.

Soberania digital: entre o silêncio das plataformas e o excesso do Estado

A atuação do STF e do TSE no ambiente digital, especialmente em ano eleitoral, é compreensível , mas não isenta de riscos. A ausência de marcos legais claros deslocou para o Judiciário um poder que deveria ser normativo, não casuístico.

A pergunta incômoda permanece: quem regula o regulador?

A democracia não sobrevive nem à captura privada do espaço público, nem ao controle estatal sem limites jurídicos bem definidos.

O que está em jogo

O Brasil de 2026 vive menos uma crise política e mais uma crise de desenho institucional. O excesso de judicialização não é sinal de maturidade democrática; é sintoma de um sistema que perdeu capacidade de produzir consensos mínimos.

A Constituição continua sendo o nosso pacto fundamental. Mas pactos só sobrevivem quando são respeitados, interpretados com responsabilidade e aplicados com parcimônia.

Se o Direito continuar sendo tratado como arma de disputa permanente, o país não colherá segurança jurídica, nem crescimento sustentável, nem estabilidade democrática.

2026 não será lembrado apenas pelas urnas.

Será lembrado como o ano em que o Brasil precisou decidir se o Direito ainda é solução  ou se passou a ser parte do problema

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