1/29/2014

O Senhor tempo.


Em algum lugar desse Planeta há sempre alguém a falar, compor, cantar  ou escrever sobre o tempo que tantas marcas deixam nas nossas vidas. Desafio hercúleo esse, o de tentar decifrá-lo, entendê-lo ou conceitua-lo. O tempo não para, como cantava Cazuza que dizia ver o futuro repetir o passado.

Alguns vivem e aproveitam bem os tempos do tempo; outros, com pressa,  os enfrentam os desafiam  como  bem traduz o poeta/cantor Lulu Santos em  Tempos Modernos.
Hoje o tempo voa, amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir
Não há tempo que volte, amor
Vamos viver tudo que há pra viver
Vamos nos permitir.
No bojo desse se permitir apressado   vêm as quedas as decepções. Lulu Santos tem razão quando canta que não há tempo que volte,  mas peço licença para discordar  quando diz que o tempo voa. Na verdade, ao se raciocinar sobre o tempo, chega-se à conclusão de que não existe essa dele passar rápido ou voar como apreendemos desde cedo. Ora, o tempo segue no seu ritmo sem presa nenhuma, no seu curso natural. Nós, enquanto humanos, é que insistimos em atropela-lo.
Como me fez lembrar o jornalista Carlos Gaby, Caetano Veloso  cantando o tempo em Oração ao Tempo, preferiu propor-lhe um acordo a ter de enfrenta-lo.
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo, tempo, tempo, tempo.
Entro num acordo contigo
Tempo, tempo, tempo, tempo...
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
O  tempo merece  respeito e o próprio Lulu Santos, citado no início do texto, reconhece  isso  na sua clássica Como uma onda.
Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo.
Importante ficar atento às mudanças impostas pelo tempo e se adequar a ele seguindo-o ali, lado a lado para não  cair, ou se  deixar enganar, como alerta   Thedy Correa  em   Sobre o Tempo, música do repertório  da Banda Nenhum de Nós.
O passado está escrito
Nas colunas de um edifício
Ou na geleira
Onde um mamute foi morrer
O tempo engana aqueles que pensam
Que sabem demais que juram que pensam

Santo, às vezes diabo, o tempo está na linha paralela das nossas vidas. O danado  sara,  mas também provoca ferida.  Dizem até que o tempo “é o senhor da razão”, crescemos ouvindo isso, e assim  seguimos tentando aprender a esperar  “dando um tempo ao tempo”  que alheio a tudo segue seu curso e com a certeza de que cada segundo nunca é mais, sempre é menos. 
Diante do mais ser sempre menos, às vezes, bate uma angustia; aí vem a vontade renovada de correr e atropelar tudo o que vem pela frente, e aí aparece um freio natural: a necessidade permanente de se aprender   a domar, controlar o tempo, e usá-lo a nosso favor.
Quando nos atemos a pelo menos tentar entender,  e  compreender o ritmo do elemento tempo, chegamos à conclusão, imortalizada pelo compositor  Almir Sater   em  Ando Devagar:
Ando devagar porque já tive pressa,
E levo esse sorriso, porque já chorei demais,
Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe,
Só levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou
Nada sei, conhecer as manhas e as manhãs,
O sabor das massas e das maçãs.
É preciso amor pra poder pulsar, é preciso paz
Pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir.
Penso que cumprir a vida, seja simplesmente compreender a marcha, ir tocando em frente, como um velho boiadeiro, levando a boiada. Eu vou tocando os dias pela longa estrada, eu vou, estrada eu sou.

Uma certeza aparece cristalina na frente dos nossos apressados olhos: o tempo corrói e destrói, mas também constrói templos onde vivemos ou matamos o amor.


O tempo segue forte, na sua calha, deixando marcas, deixando lições, ensinando, como já observava o sábio Salomão lá no seu Eclesiastes  que debaixo do Céu há momento para tudo e tempo para  cada coisa.