9/10/2015

“O Inimigo mora ao lado”

Elson Araújo   
                                         
No princípio, o clima de comoção popular. Entrevistas sofridas e revoltadas de parentes, amigos, testemunhas e de autoridades prestando contas do trabalho da Polícia.  Mais um  crime  com requintes de crueldade registrado pela  crônica policial da cidade.  Crime elucidado em tempo recorde.  Com  muita calma,  um visível olhar de satisfação beirando o riso,  e  um  tom de voz linear,  o acusado confessa o crime diante da autoridade policial,  e das câmeras de TV. 

Alcino Vilarins de Oliveira, “ rapaz velho”, de 49 anos de idade - evangélico daqueles de  não faltar a um culto,  sujeito introspecto,  entretanto,  antenado com as coisas do mundo globalizado.  Um quase filosofo.  “ Depois do crime não tive paz.  Fiquei  sentado no  Tribunal da  minha própria  consciência”  disse ele numa entrevista  primeira com  o diretor regional de segurança Eduardo Galvão que  se repetiu numa elucidativa  e estarrecedora entrevista ao repórter Raimundo Roma da TV Difusora.

 A autoridade policial enquadrou Alcino Vilarins no crime de estupro de vulnerável com resultado morte, que prevê uma pena entre 12 e 30 anos de reclusão. Feito isto, é aguardar os procedimentos da Justiça até que saia a sentença. Como é de praxe, o caso ainda vai merecer alguns esparsos  registros,  talvez por  no máximo uma semana,  depois  fatalmente cairá no esquecimento -  a não ser que surja um fato novo.

Enquanto isso, “sentado no tribunal de sua consciência”  o até então insuspeito Alcino, permanecerá recolhido, talvez imaginando  quantas  outras Kaylane Ferreira Frazão  poderia ainda ser morta pelo “ monstro”  que declarou existir dentro dele,  caso não tivesse sido preso.

Alcino matou Kaylane e queria que o  mundo soubesse disso. O delegado regional  Eduardo Galvão sobre essa tese declarou à imprensa: “ Ele queria ser encontrado.  Ele poderia ter dispensado o corpo no riacho Capivara, que  passa próximo,  mas  deixou-o em local à vista, para que a população tivesse facilidade de encontrá-lo “. Todos hão de convir, trata-se de um comportamento nada ortodoxo para quem acabara de praticar um crime bárbaro contra uma,  ainda quase criança.

Embora não se possa afirmar ainda, não precisa ser nenhum especialista para se chegar à conclusão que  Alcino Vilarins, “o açougueiro da JK”  como  chegou a ser chamado num dos textos publicados sobre o caso,  se enquadra dentro de algumas das  formas de psicopatias  descritas  pelos estudos psiquiátricos  e que algum “ gatilho” deve ter “libertado o monstro”  que ele disse que estava preso dentro dele.  Talvez esse fato nem seja  aventado durante a instrução processual,  ou objeto de algum estudo mais aprofundado acerca da personalidade  do acusado,  entretanto,   pelo modo dele agir parece que matar a menina foi apenas a extensão de algo que na verdade ele queria matar dentro dele.  Os estudos freudianos talvez expliquem melhor esse  meu arremedo de teoria.  Não vou  me arriscar nessa seara, no entanto  “abriremos diálogo”  com    a psiquiatra  Ana Beatriz Barbosa Silva, autora de Mentes Perigosas. O Psicopata mora ao lado.

A descrição de Beatriz Barbosa do que é um psicopata se enquadra, pelo menos até agora, no que se percebeu no comportamento  de Alcino Vilarins externado após o crime.

Diz a autora:   “ inteligentes,  envolventes e sedutores, não costumam levantar a menor suspeita de quem realmente são.  Podemos encontrá-los  disfarçados de religiosos,  bons políticos,  bons amantes, bons amigos. Visam apenas o beneficio próprio, almejam o poder e o status,  engordam  ilicitamente suas contas bancárias,  são mentirosos contumazes,  parasitas,  chefes tiranos, pedófilos,  líderes natos da maldade”

A estudiosa ressalta ainda que os psicopatas apresentam níveis variados de gravidade: leve, moderado e severo. Os primeiros, segundo ela,  se dedicam a trapacear, aplicar golpes e pequenos roubos,  mas provavelmente não sujarão a mão de sangue ou matarão suas vitimas. Diferente dos últimos que põem “ a  mão na  massa”  com métodos cruéis  sofisticados,  e sentem um enorme prazer com seus atos,  no que se parece emoldurar  Alcino Vilarins.

Ana Beatriz escreve ainda que a parte racional dos psicopatas é perfeita,  diferente dos sentimentos sendo  estes, na descrição da autora  “ deficitários, pobres, ausentes de afeto e profundidade emocional”.  Assim,  ressalta ela, “ concordo com  alguns autores  que dizem que os psicopatas  entendem a letra de uma canção, mas são incapazes de compreender a melodia”.

O cruel, quando a autora se refere a “esses seres” é que a maioria deles  está do lado de fora  das grades  convivendo com todos,   morando ao lado e por vezes,  dormindo na mesma cama.  Dissimulados,  são difíceis se serem identificados, exceto, quando  “ libertam o monstro” que habitam dentro deles  e cometem atrocidades, como   o assassinato da menina  Kaylane Ferreira Frazão.

Não sei, nem vou arriscar teorizar a respeito de como  surge  um psicopata, isso fica para os especialistas,   no entanto,  fica o registro e o alerta que de fato, como diz Ana Beatriz  Barbosa,  eles { os psicopatas}  estão em todos os lugares  com seus demônios prontos para serem liberados, felizmente,  pelo menos no caso de Alcino Vilarins,  este foi identificado e preso antes que fizesse outras vítimas além da jovem Kaylane.