11/13/2013

Um elo perdido


 
Por muitos motivos vale a pena conversar com os moradores mais antigos da cidade. Há sempre boas histórias para serem contadas, muitas delas já perdidas; outras eventualmente  conseguem ser resgatadas. É claro que se houver provocação aparecerão as ruins,  mas da nossa parte,  preferimos as boas histórias das quais Imperatriz é riquíssima.

A professora aposentada  Maria Luísa Brandão, mora aqui há 50 anos.  Percebe-se, pelo entusiasmo vocabular  como  a mesma  se refere às coisas da cidade,  que  tem paixão por essa terra, por essa região, por nossa história. A aposentadoria não conseguiu afastá-la do trabalho. Com a morte do marido, Mário Brandão,  assumiu o comércio da família ali na Simplício Moreira esquina com Antônio de Miranda onde diariamente recebe com  uma alegria contagiante a freguesia.  Só fecha mesmo na hora do almoço.

Quem é rainha nunca perde a majestade! Pois basta uma simples provocação para a dona Maria Luísa com aquele jeito de “normalista”  aparecer com as muitas histórias que guarda na memória. Um delas esses dias  nos despertou a  atenção:   a de um benfeitor, um quase santo italiano que por anos fez história na região como  religioso e médico.  O  franciscano Alberto Beretta.

Conta a professora que entre as décadas de  1960 e 1970, do século passado,  quando o termo “ célula tronco”  ainda era pouco ou  quase nem mencionado no Brasil ,  em Grajaú, o Franciscano  Alberto Beretta  (1916-2001) já desenvolvia uma técnica de tratamento para diversos tipos de doenças a partir do uso da placenta,  que  hoje se sabe, é largamente usada pela ciência em pesquisas com células tronco, esperança de tratamento para  inúmeras enfermidades.
  
Como hoje se sabe, as células-tronco, também conhecidas como células estaminais, são indiferenciadas (não possuem uma função determinada) e se caracterizam pela capacidade de se transformar em diversos tipos de tecidos que formam o corpo humano.

A dona Maria Luísa diz que  conheceu bem de perto frei Alberto.  Uma vez, recorda ela,  levou o filho Francisco Brandão, na época com quatro anos de idade, para se consultar  com ele em Grajaú. Estava  com problemas na garganta. Ela conta que já  havia recebido a  recomendação  para que o menino fosse operado para retirar as amígdalas, mas não se precipitou preferindo antes um contato  com o religioso. “ O Frei tratou meu filho  não foi preciso operá-lo” rememora.


“ Até paralítico ele fez andar com suas injeções de placenta”   recordou no meio da conversa com a dona Maria Luísa,  o  funcionário da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), antiga Sucam,  Joaquim de Jesus.  Ele diz que não chegou, como a professora, a conhecer o médico/frei,   mas quando foi  trabalhar em Grajaú se deparou com a fama dele. “  Na cidade  o que se falava é que vinha gente até de outros países se tratar com o Frei Alberto” conta.

Antes de cair doente e voltar para  a Itália ( morreu em Bergamo  em 10 de agosto de 2001)   o religioso confiou a formula a auxiliares mais próximos o  que nos faz depreender que esse trabalho médico realizado na época,  certamente em condições adversas,   pode ser considerado um elo perdido das pesquisas com células tronco, e se houver interesse dos cientistas brasileiros  há chances de  ser resgatado podendo auxiliar nas diversas pesquisas sobre o tema em andamento  em todo mundo. 

Passados os anos, hoje  os pesquisadores afirmam que graças ao desenvolvimento da chamada terapia celular, com células tronco, será possível, nas próximas décadas restaurar células nervosas, ajudar na regeneração de órgãos como fígado e o coração e até a chegar á cura do diabetes tipo 1 e de doenças degenerativas como o Alzheimer.

O Frei Alberto, segundo relatos dos grajauenses mais antigos,   parece que já sabia  de tudo disso e durante anos, curou muita gente  nas barrancas do Grajaú.

Exibindo um “santinho” biográfico do frei Alberto a professora Maria Luísa  encerrou a história   dizendo que não eram poucas as pessoas da cidade que saiam de Imperatriz  enfrentando as  dificuldades de transporte  e a precariedade rodoviária da época para chegar até Grajaú  com a esperança de encontrar a solução dos seus problemas de saúde com o religioso.

A conversa com a professora foi encerrada com um  agradecimento, um abraço e a garantia de um breve retorno,  e quem sabe o relato de novas histórias.