Lição da
Ciência
"Algumas testemunhas esquecem. O DNA,
quando preservado, pode permanecer."
Havia uma
identidade escondida dentro de cada pessoa
Durante séculos, a investigação criminal
procurou reconhecer pessoas através daquilo que podia ser visto.
O rosto.
A voz.
As cicatrizes.
As medidas do corpo.
As impressões digitais.
Depois, vieram os grupos sanguíneos.
Cada descoberta aproximava a investigação da
identidade.
Mas nenhuma delas havia chegado tão
profundamente.
Dentro de cada célula humana existia uma
espécie de arquivo biológico.
Um código.
Uma assinatura.
Uma história que acompanhava o indivíduo desde
o início da vida.
Era o DNA.
A
descoberta que aconteceu às 9h05
Em 10 de setembro de 1984, no laboratório da
Universidade de Leicester, o geneticista britânico Alec Jeffreys
observava padrões de variação no DNA humano.
Ele estudava material genético de uma técnica
de laboratório e de seus pais.
Então aconteceu algo que mudaria a história da
investigação.
Os resultados apresentaram padrões
extraordinariamente variáveis.
Jeffreys percebeu que determinadas regiões do
DNA produziam combinações capazes de distinguir indivíduos e também revelar
relações familiares.
A descoberta recebeu o nome de genetic
fingerprinting — impressão genética.
O próprio pesquisador descreveu aquele momento
como um verdadeiro instante de revelação científica.
Era como descobrir uma impressão digital
escondida dentro das células.
O DNA não
nasceu para prender criminosos
E há uma ironia fascinante nessa história.
A primeira grande aplicação prática da técnica
não foi criminal.
Foi um caso de imigração.
Em 1985, a análise genética ajudou a
solucionar uma disputa envolvendo a origem familiar de um jovem que poderia ser
impedido de permanecer no Reino Unido.
Pouco depois, a técnica foi utilizada em um
caso de paternidade.
A genética começava a demonstrar que podia
responder perguntas que documentos, testemunhos e aparências nem sempre
conseguiam resolver.
Se o DNA podia distinguir pessoas...
poderia também identificar quem havia deixado
um vestígio biológico?
A pergunta mudaria a investigação criminal
para sempre.
Sangue.
Saliva.
Sêmen.
Células da pele.
Folículos capilares.
Outros materiais biológicos.
Tudo aquilo que pudesse conter células humanas
poderia, dependendo da qualidade e quantidade do material, carregar uma
informação genética.
A cena investigada ganhou uma nova dimensão.
O corpo humano começava a deixar uma espécie
de assinatura invisível.
A primeira
grande prova veio de um caso que parecia impossível
Em Leicestershire, duas adolescentes, Lynda
Mann e Dawn Ashworth, haviam sido assassinadas.
Um homem chegou a confessar um dos crimes.
A investigação parecia caminhar para uma
conclusão.
Mas a genética faria algo extraordinário.
As análises de DNA demonstraram que o suspeito
não era o responsável pelos crimes.
A ciência não apenas ajudou a encontrar um
culpado.
Primeiro, ajudou a provar que um suspeito era
inocente.
Essa talvez seja uma das maiores lições da
história do DNA forense.
A ciência não existe para confirmar suspeitas.
Existe para testá-las.
Então
começou uma busca por uma assinatura
A polícia realizou uma ampla coleta de
amostras entre homens da região.
O objetivo era encontrar um perfil genético
compatível com o material biológico relacionado aos crimes.
Durante a investigação, surgiu a informação de
que um homem chamado Colin Pitchfork havia convencido outra pessoa a
fornecer uma amostra em seu lugar.
A fraude chamou a atenção dos investigadores.
Quando Pitchfork foi finalmente testado, seu
perfil genético correspondeu às evidências encontradas nos casos.
A investigação havia encontrado sua assinatura
biológica.
Em 1986, o DNA havia entrado definitivamente
na história da investigação criminal.
Pitchfork seria posteriormente condenado.
A ciência
havia aprendido uma coisa extraordinária
Até então, o investigador procurava uma
pessoa.
Agora poderia procurar uma correspondência
genética.
Era uma mudança conceitual profunda.
O vestígio não precisava mais apenas apontar
para uma característica física.
Ele poderia carregar uma informação molecular.
A investigação começava a descer até o nível
mais íntimo da matéria viva.
Mas o DNA
não é uma máquina de verdade
Aqui existe uma distinção que precisa ser
preservada.
O DNA não diz:
"Esta pessoa cometeu o crime."
Ele pode indicar que determinado material
biológico é compatível com determinado indivíduo, ou ajudar a excluir pessoas
de uma investigação.
O significado jurídico dessa correspondência
depende do contexto, da qualidade da amostra, da cadeia de custódia, dos
métodos utilizados e das demais provas.
A própria genética forense não substitui a
investigação.
Ela fornece informação científica.
A Justiça é responsável por interpretar essa
informação dentro do conjunto probatório.
O olhar da
História
A descoberta de Jeffreys inaugurou a era da
identificação genética.
A técnica original de “impressão genética”
utilizava regiões altamente variáveis do DNA e produzia padrões que podiam ser
comparados entre indivíduos.
Posteriormente, métodos mais rápidos,
sensíveis e adequados à investigação forense foram desenvolvidos.
O que começou com uma imagem complexa de
fragmentos de DNA evoluiu para os modernos perfis genéticos utilizados pela
ciência forense.
O olhar da
Ciência
Hoje, a genética forense trabalha com métodos
muito mais sofisticados do que aqueles disponíveis na década de 1980.
Pequenas quantidades de material biológico
podem, em determinadas circunstâncias, fornecer informações genéticas úteis.
O desenvolvimento da biologia molecular
ampliou enormemente a capacidade de comparar amostras e estabelecer vínculos
entre pessoas, vestígios e investigações.
Mas o princípio permanece o mesmo:
uma parte do corpo pode carregar informação
sobre o indivíduo ao qual pertence.
O olhar do
autor
Talvez esta seja uma das histórias mais
bonitas de toda a investigação criminal.
Durante milhares de anos, o ser humano
procurou sua identidade no rosto.
Depois, no corpo.
Nas medidas.
Nas impressões digitais.
No sangue.
Até finalmente descobrir que carregava sua
identidade em uma escala invisível.
O investigador já não precisava apenas
perguntar:
"Quem é essa pessoa?"
Podia perguntar:
"Que informação essa célula
preservou?"
E talvez seja essa a grande revolução da
ciência:
não tornar o homem invisível.
Mas tornar visível aquilo que sempre esteve
dentro dele.
Legado para
a Justiça Contemporânea
O DNA transformou a investigação criminal, a
identificação de pessoas, os testes de parentesco e a identificação de restos
humanos.
Também produziu uma consequência especialmente
importante:
a possibilidade científica de revisar erros do
passado.
Uma tecnologia criada para identificar também
pode excluir.
Pode reabrir casos.
Pode questionar condenações.
Pode revelar que uma suspeita estava errada.
Pode devolver um nome a alguém que morreu sem
identidade.
A mesma ciência que ajuda a encontrar um
culpado pode, em determinadas circunstâncias, ajudar a libertar um inocente.
Essa talvez seja sua maior força jurídica.
Para
refletir
"A investigação encontrou no corpo humano
uma testemunha que não fala, mas conserva."
Elson Mesquita de Araujo
Advogado, jornalista, escritor, pesquisador
REFERÊNCIAS
- University of Leicester — História da descoberta da impressão
genética por Alec Jeffreys.
- University of Leicester — Cronologia da genética forense.
- National Human Genome Research Institute — conceito e aplicações da
impressão digital de DNA.
- Literatura científica sobre genética forense e identificação
genética.
