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8/25/2026

ATÉ ONDE VAI A RESPONSABILIDADE DE UM HOMEM?

 



My Lai, William Calley e o limite entre obedecer e responder

Em 16 de março de 1968, soldados americanos entraram no vilarejo de My Lai, no Vietnã. Não encontraram a resistência inimiga que esperavam. Ainda assim, centenas de civis foram mortos. O episódio permaneceu encoberto por mais de um ano, até que investigações e relatos trouxeram o massacre à luz. (Jagcnet)

Entre os envolvidos estava o então segundo-tenente William L. Calley Jr., comandante de um pelotão. Treze militares chegaram a ser acusados em diferentes graus; Calley foi o único condenado. Em 1971, uma corte marcial o considerou culpado pelo assassinato premeditado de 22 civis e impôs inicialmente prisão perpétua. Sua pena seria posteriormente reduzida e ele acabaria colocado em liberdade condicional em 1974. (História Militar dos EUA)

Mas o caso não interessa à nossa coleção apenas pelo massacre.

Interessa pela pergunta que ficou:

Quando alguém recebe uma ordem, em que momento deixa de ser apenas subordinado e passa a ser responsável pelo que faz?

 

A frase que tenta encerrar a discussão

Existe uma frase que aparece repetidamente na História:

“Eu estava apenas cumprindo ordens.”

Ela parece simples.

E justamente por isso é perigosa.

Porque, se for aceita como justificativa absoluta, transforma o indivíduo em uma espécie de instrumento sem vontade própria.

A pessoa não decide.

Não avalia.

Não questiona.

Não responde.

A ordem chega.

A mão executa.

E a responsabilidade desaparece.

Mas será que pode desaparecer?

 

My Lai

Na manhã daquele 16 de março, soldados da Companhia Charlie chegaram a My Lai.

Segundo registros históricos do próprio Exército americano, não encontraram resistência inimiga no vilarejo. Civis desarmados foram reunidos e mortos. A investigação posterior identificou centenas de vítimas e também revelou tentativas de encobrimento. (Us Army Central)

O episódio chocaria os Estados Unidos e o mundo.

Mas talvez o mais perturbador não esteja apenas no que aconteceu.

Está no fato de que alguns homens perceberam que aquilo estava errado enquanto acontecia.

Um deles foi o subtenente Hugh Thompson, que sobrevoava a área em um helicóptero.

Ao perceber que civis estavam sendo mortos, Thompson pousou e confrontou soldados americanos.

Ele não tinha recebido uma ordem para desafiar seus próprios companheiros.

Tinha recebido uma missão de observação.

Mas decidiu agir.

E essa escolha é fundamental para nossa história.

Porque, naquele momento, duas possibilidades estavam diante de um homem:

obedecer ao ambiente

ou

obedecer à própria consciência.

Thompson escolheu a segunda.

Anos depois, ele e seus companheiros seriam reconhecidos por terem salvado vidas. (Us Army Central)

 

O problema da obediência

É aqui que nosso texto se distancia de Milgram.

Milgram perguntou:

Por que pessoas comuns obedecem a uma autoridade mesmo quando a ordem entra em conflito com sua consciência?

Agora perguntamos outra coisa:

A obediência diminui a responsabilidade de quem executa a ordem?

São perguntas próximas.

Mas não são iguais.

Uma pertence à psicologia.

A outra pertence ao Direito, à ética e à consciência individual.

 

A farda não apaga o indivíduo

Uma farda muda a função de uma pessoa.

Não deveria apagar sua humanidade.

Um soldado recebe ordens.

Mas também recebe responsabilidades.

Um policial recebe ordens.

Mas também responde pela legalidade de seus atos.

Um funcionário público recebe determinações.

Mas não recebe, junto com o cargo, uma autorização para cometer qualquer ilegalidade.

A autoridade hierárquica pode organizar uma instituição.

Não pode transformar o errado em certo.

 

O julgamento de Calley

O julgamento de William Calley começou em novembro de 1970.

Em 29 de março de 1971, ele foi considerado culpado pelo assassinato de 22 civis vietnamitas e recebeu inicialmente pena de prisão perpétua com trabalhos forçados. (História Militar dos EUA)

O caso provocou enorme divisão na sociedade americana.

Muitos consideravam Calley um criminoso.

Outros o enxergavam como bode expiatório de uma guerra inteira.

Uma pesquisa Gallup realizada em 1971 apontou que 79% dos entrevistados se opunham à sua condenação. (Jagcnet)

E aqui aparece outra pergunta:

é possível responsabilizar um indivíduo sem ignorar o sistema que o produziu?

 

O indivíduo e a máquina

Essa talvez seja a parte mais interessante dessa história.

Calley não existia isoladamente.

Havia uma guerra.

Havia uma cadeia de comando.

Havia uma cultura militar.

Havia pressão por resultados.

Havia decisões tomadas por superiores.

Havia outros soldados.

Havia oficiais.

Havia uma instituição.

Havia um sistema que posteriormente tentou encobrir o ocorrido.

A investigação do Exército identificou cerca de 30 pessoas que tinham conhecimento dos acontecimentos, participaram de atos relacionados ao massacre ou contribuíram para o encobrimento. Mesmo assim, somente Calley acabou condenado criminalmente pelo massacre. (Army University Press)

Isso torna a pergunta ainda mais difícil:

por que apenas um homem pagou?

 

O Direito diante do dilema

Há dois erros igualmente perigosos.

O primeiro:

“Foi o sistema, portanto ninguém é culpado.”

O segundo:

“Foi um indivíduo, portanto o sistema não tem responsabilidade.”

A realidade pode ser mais incômoda.

Às vezes, o sistema cria as condições e o indivíduo toma a decisão.

E então pode haver responsabilidades em diferentes níveis.

Essa é uma das grandes dificuldades do Direito:

individualizar a culpa sem ignorar o contexto.

 

E se todos obedecessem?

Imagine uma situação diferente.

Um soldado recebe uma ordem claramente ilegal.

Ele obedece.

Outro vê.

Obedece também.

Outro percebe.

Permanece em silêncio.

Outro poderia impedir.

Não impede.

E assim sucessivamente.

No final, ninguém se considera responsável porque todos estavam apenas cumprindo uma função.

Mas quem matou?

Todos e ninguém.

É justamente essa lógica que o Direito precisa romper.

 

A responsabilidade começa onde termina a desculpa

O Exército americano reconheceria posteriormente que treinamento inadequado sobre as leis da guerra foi um dos fatores relacionados ao desastre e promoveu mudanças na formação militar. A partir de 1970, as regras passaram a exigir treinamento mais abrangente sobre as Convenções de Haia e Genebra, além de revisão jurídica de planos operacionais. (Jagcnet)

Isso é importante.

Porque uma tragédia não deve produzir apenas punições.

Deve produzir aprendizado institucional.

O Direito que apenas castiga olha para trás.

O Direito que aprende também olha para frente.

 

A pergunta que Calley deixou

Não precisamos transformar William Calley em monstro.

Nem em vítima.

Nem em herói.

Precisamos fazer algo mais difícil:

julgá-lo como ser humano.

Um homem situado dentro de uma estrutura.

Um homem que recebeu ordens.

Um homem que tomou decisões.

Um homem que depois alegou estar cumprindo determinações superiores.

E então perguntar:

Em que momento a ordem deixa de ser uma justificativa e passa a ser uma acusação?

 

O limite

Talvez a resposta esteja justamente naquilo que parece mais simples.

Existem ordens que podem ser cumpridas.

Existem ordens que podem ser questionadas.

E existem ordens que não devem ser obedecidas.

A dificuldade está em reconhecer a diferença.

Porque a consciência não funciona como um código de trânsito.

Não há sempre uma placa dizendo:

“Pare. A partir daqui você será responsável.”

Às vezes, essa placa está dentro de nós.

 

O homem que disse não

Por isso Hugh Thompson precisa permanecer nesta história.

Enquanto outros homens executavam ou observavam, ele decidiu intervir.

Sua atitude não foi apenas corajosa.

Foi juridicamente e moralmente reveladora.

Ela demonstrou que, mesmo dentro de uma estrutura militar, a possibilidade de escolha individual não desaparece completamente.

A existência de uma ordem não elimina automaticamente a consciência.

E talvez seja exatamente aí que nasça a responsabilidade.

 

A grande pergunta do Direito Penal

Quanto poder podemos atribuir às circunstâncias?

A guerra explica?

A hierarquia explica?

O medo explica?

A pressão explica?

A obediência explica?

Sim.

Explicar não é necessariamente absolver.

Essa distinção é preciosa.

Uma causa pode explicar por que alguém fez alguma coisa.

Mas isso não significa, automaticamente, que a causa elimine sua responsabilidade.

 

A culpa é sempre individual?

Não necessariamente.

Instituições também podem falhar.

Comandantes podem omitir.

Superiores podem encobrir.

Sistemas podem criar incentivos perversos.

Governos podem estabelecer políticas desumanas.

Mas, quando chegamos ao ato concreto, existe uma pergunta inevitável:

quem tomou aquela decisão?

O Direito precisa encontrar essa pessoa.

Sem transformar o indivíduo em bode expiatório.

Sem permitir que a estrutura vire esconderijo.

 

O preço de obedecer

Talvez seja essa a pergunta que devemos levar conosco:

quanto custa obedecer quando sabemos que a ordem está errada?

Às vezes custa a carreira.

Às vezes custa a amizade.

Às vezes custa a própria segurança.

Mas existe outro preço.

O preço de obedecer pode ser viver para sempre sabendo que você poderia ter dito:

não.

 

EPÍLOGO

My Lai não terminou no dia em que os tiros cessaram.

Continuou nos relatórios.

Nas fotografias.

Nos tribunais.

Na memória dos sobreviventes.

Na consciência daqueles que estiveram lá.

E nas perguntas que o caso deixou para o Direito.

Uma delas permanece especialmente incômoda:

se uma ordem pode transformar um crime em dever, então quem protege a humanidade contra o próprio poder?

Talvez a resposta esteja em uma ideia muito antiga e muito simples:

ninguém deixa de ser responsável simplesmente porque recebeu uma ordem.

A autoridade pode explicar a cadeia de comando.

Pode explicar o contexto.

Pode explicar o medo.

Pode explicar a pressão.

Mas não pode, sozinha, apagar a consciência.

Porque, no instante em que um homem executa uma ordem, a ordem continua pertencendo ao superior,  mas o ato passa pelas mãos daquele que o executou.

E é nesse espaço estreito entre mandar e fazer que mora uma das perguntas mais difíceis do Direito:

Até onde vai a responsabilidade de um homem?

Elson Mesquita de Araujo

Advogado, jornalista, escritor, pesquisador


Para o leitor que quiser ir além

A documentação oficial do Exército americano sobre My Lai é especialmente valiosa para nossa proposta, porque permite confrontar a narrativa com fontes institucionais e conhecer também as reformas jurídicas que o episódio provocou. (Jagcnet)

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