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7/21/2026

O ALGORITMO TAMBÉM JULGA? Quando a Inteligência Artificial começou a influenciar a busca pela verdade

 



“Toda época possui sua prova perfeita. A sabedoria está em desconfiar de todas elas.”


O instante decisivo

Wisconsin, Estados Unidos. Ano de 2016.

Em um tribunal lotado, o juiz consulta um relatório antes de anunciar a sentença.

Não é um laudo de DNA.

Não é uma perícia de impressões digitais.

Não é o depoimento de uma testemunha.

É o resultado de um algoritmo.

Na tela do computador, números, gráficos e probabilidades indicam o risco de reincidência do réu.

O documento parece técnico, objetivo, científico.

Mas uma pergunta permanece no ar:

Quem julgou primeiro? O juiz ou a máquina?

A narrativa

Ao longo da história, a humanidade buscou instrumentos cada vez mais precisos para alcançar a verdade.

Confiou no fogo.

Confiou na confissão.

Confiou nos vestígios.

Confiou nas impressões digitais.

Confiou no sangue.

Confiou no DNA.

Agora, começa a confiar nos dados.

A Inteligência Artificial passou a integrar investigações, auxiliar análises periciais, organizar grandes volumes de informação e prever padrões de comportamento.

Sistemas computacionais são capazes de identificar rostos, reconhecer vozes, analisar transações financeiras, rastrear redes criminosas e até sugerir níveis de risco em processos judiciais.

A promessa é sedutora: decisões mais rápidas, mais consistentes e menos sujeitas aos erros humanos.

Mas toda promessa traz consigo novas perguntas.

O olhar da História

O caso State v. Loomis, julgado em 2016 pela Suprema Corte de Wisconsin, tornou-se um dos marcos do debate contemporâneo sobre inteligência artificial e justiça.

No processo, a defesa questionou o uso do software COMPAS, utilizado para avaliar o risco de reincidência do acusado.

O tribunal permitiu o uso da ferramenta, mas reconheceu a necessidade de cautela e transparência.

Pela primeira vez, a Justiça foi obrigada a discutir não apenas as provas apresentadas, mas também os critérios utilizados por uma máquina para produzir recomendações.

A questão deixava de ser apenas jurídica.

Passava a ser filosófica.

O olhar da Ciência

Algoritmos aprendem a partir de dados.

E dados são produzidos por sociedades humanas.

Se a realidade contém desigualdades, preconceitos ou distorções, os sistemas de inteligência artificial podem reproduzir esses padrões.

Além disso, muitos modelos funcionam como “caixas-pretas”, oferecendo respostas sem explicar claramente como chegaram a elas.

A tecnologia pode ampliar a capacidade de análise, mas não elimina a necessidade de contraditório, supervisão humana e transparência.

A prova algorítmica, como qualquer outra, precisa ser compreendida, testada e questionada.

O olhar do autor

Talvez o maior equívoco do nosso tempo seja acreditar que a tecnologia substituiu a responsabilidade humana. A história da prova ensina exatamente o contrário. Nenhuma ferramenta, por mais sofisticada que seja, dispensa a prudência. O fogo errou. A confissão errou. As testemunhas erraram. Os peritos erraram. Os algoritmos também errarão. A diferença entre uma sociedade justa e uma sociedade injusta não está em eliminar o erro, mas em construir mecanismos capazes de identificá-lo, corrigi-lo e aprender com ele.

As lições permanentes

✔ Nenhuma tecnologia é neutra por definição.

✔ Algoritmos podem ampliar a eficiência, mas também reproduzir vieses.

✔ Transparência é condição de legitimidade.

✔ O contraditório continua sendo essencial.

✔ A decisão final deve permanecer humana.

Se este capítulo fosse julgado hoje...

Sistemas de inteligência artificial já são utilizados para análise de documentos, apoio à investigação, reconhecimento de padrões e gestão processual em diversos países. O desafio contemporâneo não é impedir o uso da tecnologia, mas garantir que ela esteja subordinada aos princípios constitucionais, aos direitos fundamentais e ao controle democrático.


Para refletir

Toda geração acreditou ter encontrado a prova definitiva. A maturidade da Justiça começa quando ela aprende a desconfiar até mesmo de suas melhores ferramentas.”

Elson Mesquita de Araujo

Advogado, jornalista, escritor, pesquisador

Referências

  • State v. Loomis, 881 N.W.2d 749 (Wis. 2016).

  • Cathy O’Neil. Weapons of Math Destruction.

  • Daniel Kahneman. Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar.

  • Frank Pasquale. The Black Box Society.

  • Mireille Hildebrandt. Law for Computer Scientists and Other Folk.

  • Nick Bostrom. Superintelligence.

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