A palavra cidadela
remete à proteção, à fortificação, a uma fortaleza. É aquele último lugar de
resistência quando as muralhas de fora já foram vencidas.
Durante
muito tempo, os narradores esportivos também gostavam dela. Chamavam de
cidadela a defesa de um time, aquele território quase sagrado que o adversário
precisava conquistar.
Os poetas,
naturalmente, fizeram uso ainda mais bonito da palavra. Para eles, cidadela
também pode ser o coração.
Encontro,
por exemplo, este poema de Eleni Mariana de Menezes:
Cidadela da
minha desguarnecida.
Meu
coração, o arqueiro já não tem
a zaga protetora, a guarida. Dantes disposta no sorriso de alguém.
E continua:
Ai, quantos
gols angústias permiti marcar
E meu juízo, o juiz, valida os impedidos.
Bonita a
metáfora.
E é
justamente ela que me vem à cabeça quando observo o Brasil destes tempos.
Não
encontro, neste instante, outra palavra que traduza melhor a sensação de
milhões de brasileiros diante das instituições que deveriam representar suas
últimas linhas de proteção.
Cidadela.
Ou, talvez,
a última cidadela.
Não estou
falando de um prédio. Nem de ministros. Nem de partidos. Nem deste ou daquele
governo.
Estou
falando de confiança.
Nos livros
de Direito aprendemos que, nas democracias, o poder pertence ao povo e nele se
origina. Para organizar esse poder, a
teoria clássica concebeu três grandes funções do Estado: Executivo, Legislativo
e Judiciário.
Montesquieu,
no século XVIII, ajudou a formular uma das ideias mais importantes da
civilização moderna: o poder precisa encontrar limites no próprio poder.
Um poder
deveria conter o outro.
Não porque
os homens sejam naturalmente maus, mas justamente porque são humanos.
E talvez
seja essa a grande sabedoria da teoria.
Nenhum
homem deveria ter poder absoluto.
Nenhuma
instituição deveria ser grande demais para ser questionada.
Nenhuma
autoridade deveria estar acima da Constituição.
E nenhuma
sociedade deveria precisar escolher entre obedecer ao poder e preservar a
própria liberdade.
No Brasil,
entretanto, há algum tempo assistimos a uma coisa preocupante.
Executivo e
Legislativo, por razões diferentes e em momentos diferentes, foram perdendo
parte considerável da confiança popular.
E quando as
instituições políticas começam a se distanciar do cidadão, sobra naturalmente
uma expectativa maior sobre aquela que deveria funcionar como guardiã das
regras do jogo: a Justiça.
O Supremo
Tribunal Federal, pela própria arquitetura constitucional brasileira, ocupa uma
posição singular.
É a última
instância.
A última
palavra em muitas questões.
Aquela
porta que imaginamos encontrar aberta quando todas as outras se fecham.
A cidadela.
E talvez
por isso mesmo seja tão perigoso quando a confiança nessa última porta começa a
desaparecer.
Porque uma
democracia não sobrevive apenas de leis escritas.
Ela precisa
de credibilidade.
Precisa que
o cidadão comum, aquele que acorda cedo, pega ônibus, abre sua pequena loja,
trabalha, paga impostos e volta para casa cansado, acredite que existe alguma
regra acima de todos.
Precisa
acreditar que a mesma Constituição que protege o poderoso também protege o
anônimo.
Que a
Justiça não tem lado.
Que a lei
não tem preferência.
Que o
cidadão não precisa conhecer ninguém para ser ouvido.
Porque,
quando essa crença desaparece, alguma coisa muito maior do que uma decisão
judicial está em jogo.
É a própria
ideia de Justiça que começa a perder a sua cidadela.
E aqui está
o perigo.
Instituições
podem sobreviver a críticas.
Devem,
inclusive, sobreviver a elas.
Uma
democracia saudável precisa suportar o cidadão que pergunta, contesta, discorda
e até protesta.
O que ela
não pode suportar é o silêncio produzido pelo medo.
Também não
pode viver permanentemente sob a suspeita de que existem brasileiros mais
iguais que outros.
A
democracia é, antes de tudo, uma promessa.
A promessa
de que ninguém será grande demais diante da lei.
Talvez seja
por isso que a palavra cidadela tenha me perseguido durante a construção
desta crônica.
Porque uma
cidadela não existe apenas para ser admirada.
Ela existe
para proteger.
E, no caso
de uma Suprema Corte, proteger não significa proteger governos, partidos ou
governantes.
Significa
proteger a Constituição.
Proteger
direitos.
Proteger
minorias.
Proteger,
inclusive, aquele cidadão que pensa diferente da maioria.
E proteger
a própria liberdade de quem critica a Corte.
É uma
tarefa difícil.
Talvez a
mais difícil de todas.
Por isso,
quando olho para o Brasil de hoje, não me interessa saber quem está ganhando a
batalha política do momento.
Interessa-me
outra coisa.
Quem está
cuidando das muralhas?
Porque
governos passam.
Senadores
passam.
Deputados
passam.
Ministros
também passam.
Até as
gerações passam.
Mas as
instituições permanecem , ou deveriam
permanecer , para que aqueles que ainda
nem nasceram possam viver sob regras minimamente confiáveis.
A
verdadeira cidadela, portanto, não é um tribunal.
Não é um
palácio.
Não é uma
toga.
A
verdadeira cidadela é a confiança do cidadão na Justiça.
E quando
essa confiança começa a ruir, não há exército que consiga reconstruí-la.
Será
preciso algo muito mais difícil:
verdade,
equilíbrio, humildade institucional e respeito absoluto aos limites do poder.
Talvez seja
essa a última cidadela que ainda precisamos defender.
Não contra
um inimigo externo.
Mas contra
aquilo que, silenciosamente, pode destruir uma democracia por dentro:
a perda da
fé nas próprias instituições.
E fico
pensando, como quem olha uma antiga fortaleza ao entardecer:
quando a
última cidadela deixa de proteger a esperança, para onde vai o cidadão?
Elson Mesquita de Araujo
Advogado, jornalista, pesquisador
