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8/11/2026

O SANGUE TAMBÉM TEM MEMÓRIA-Karl Landsteiner, Leone Lattes e a descoberta de uma nova identidade

 


Lição da Ciência


"Antes que o sangue pudesse revelar um nome, a ciência precisou descobrir que ele também carregava uma identidade."

 

Durante muito tempo, sangue era apenas sangue

Durante séculos, encontrar sangue significava encontrar um vestígio.

Podia indicar que alguma coisa havia acontecido.

Mas não respondia à pergunta que interessava à Justiça:

A quem pertencia aquele sangue?

A pergunta parecia simples.

A resposta, entretanto, exigiria uma das maiores descobertas da história da Medicina.

 

A descoberta que mudou tudo




No início do século XX, o médico e cientista austríaco Karl Landsteiner percebeu que o sangue humano não era biologicamente igual em todas as pessoas.

Ao misturar diferentes amostras de sangue, observou que algumas combinações provocavam aglutinação das hemácias, enquanto outras não.

A partir dessas observações, Landsteiner identificou os primeiros grupos sanguíneos do sistema ABO.

Em 1901, publicou a classificação que estabeleceria as bases do conhecimento moderno sobre os grupos sanguíneos. O grupo AB seria identificado pouco depois, em 1902.

A descoberta explicava por que algumas transfusões eram compatíveis e outras podiam provocar reações graves.

Mas suas consequências ultrapassariam os hospitais.

 

O sangue passou a carregar informação

A partir da descoberta dos grupos sanguíneos, uma nova possibilidade surgiu.

Se as pessoas possuíam diferentes características sanguíneas, uma mancha de sangue poderia conservar alguma dessas características mesmo depois de separada do corpo.

O sangue deixava de ser apenas uma evidência de que algo havia acontecido.

Começava a se transformar em evidência sobre quem poderia estar relacionado àquele vestígio.

Era uma mudança extraordinária.


Leone Lattes entra em cena


Foi então que a descoberta de Landsteiner encontrou a Medicina Legal.

O italiano Leone Lattes, médico e serologista, desenvolveu em 1913 um método para determinar o grupo sanguíneo a partir de manchas de sangue secas.

O chamado teste de Lattes utilizava reações de aglutinação para investigar características do sistema ABO presentes na mancha.

Pela primeira vez, uma mancha que permanecera aparentemente silenciosa podia oferecer uma informação biológica relevante à investigação.

A química havia encontrado o veneno.

Agora, a serologia começava a encontrar uma característica do sangue.

 

A mancha que atravessou o tempo

 

Imagine uma pequena mancha seca.

Para o olhar comum, ela pode parecer apenas uma marca antiga.

Para o investigador treinado, porém, ela pode representar uma pergunta.

Foi sangue humano?

De que grupo?

É compatível com determinado indivíduo?

Pode excluir alguém?

A ciência transformava uma aparência em uma sequência de perguntas verificáveis.

 

Mas havia um limite

 

E aqui está uma distinção fundamental para compreender a história da investigação científica.

O grupo sanguíneo não identificava sozinho uma pessoa.

Se determinada mancha fosse classificada como pertencente ao grupo A, isso não significava que ela necessariamente pertencesse a uma pessoa específica.

Milhões de indivíduos poderiam compartilhar aquela característica.

O valor forense estava, muitas vezes, na capacidade de incluir ou excluir possibilidades, e não de apontar sozinho um indivíduo.

Essa diferença seria fundamental para a evolução posterior da ciência forense.

 

Do grupo ao indivíduo

A descoberta dos grupos sanguíneos abriu uma estrada.

Depois vieram outros marcadores biológicos.

Sistemas sanguíneos adicionais.

Proteínas séricas.

Enzimas.

Antígenos.

E, décadas mais tarde, a genética molecular.

A investigação caminhava lentamente de características compartilhadas por muitos indivíduos para características cada vez mais discriminatórias.

Até chegar ao DNA.

Mas essa história ainda estava distante.

 

O olhar da História

A descoberta do sistema ABO por Landsteiner, no início do século XX, criou a base para aplicações que ultrapassariam a transfusão sanguínea. A utilização de características hereditárias dos grupos sanguíneos em investigação forense e de parentesco começou a ganhar espaço nas décadas seguintes.

O trabalho de Leone Lattes representou um passo importante ao permitir a determinação do grupo ABO em manchas de sangue secas.

 

O olhar da Ciência

Hoje, o sangue pode revelar muito mais do que o grupo ABO.

A ciência forense moderna dispõe de métodos capazes de analisar diferentes componentes biológicos e, quando há material genético adequado, realizar a identificação por perfil de DNA.

Mas é importante compreender a trajetória.

A ciência não saltou diretamente do sangue para o DNA.

Ela percorreu um longo caminho.

Primeiro reconheceu o vestígio.
Depois classificou o sangue.
Depois comparou características.
Finalmente aprendeu a investigar o código genético.

 

O olhar do autor

 

Talvez o mais fascinante nessa história seja perceber que a ciência raramente começa encontrando a resposta.

Ela começa aprendendo a fazer perguntas melhores.

Uma mancha de sangue existia muito antes de Landsteiner.

O que mudou foi o olhar humano diante dela.

Antes:

“Há uma mancha.”

Depois:

“É sangue?”

Mais tarde:

“Qual é o grupo?”

E finalmente:

“Que informação biológica esse vestígio conserva?”

A evolução da investigação científica pode ser resumida justamente assim:

não é apenas aprender a ver o vestígio.
É aprender a perguntar o que ele pode dizer.

 

Legado para a Justiça Contemporânea

Os grupos sanguíneos perderam protagonismo na identificação individual depois do desenvolvimento de métodos genéticos muito mais discriminatórios.

Mas sua importância histórica permanece enorme.

Eles ensinaram à Justiça uma lição que seria repetida inúmeras vezes na história da ciência forense:

um vestígio biológico pode carregar informação sobre a pessoa que o deixou.

A partir dessa descoberta, o corpo humano começou a deixar de ser apenas objeto da Medicina Legal.

Passou a ser também uma fonte de informação para a investigação.

E a próxima revolução seria ainda mais profunda.

Porque, dentro do sangue, existia algo que a ciência ainda não havia aprendido a ler.

O DNA.

 

Para refletir

"O sangue não diz apenas que alguém esteve ali. A ciência aprendeu a perguntar o que mais ele pode revelar."

Elson Mesquita de Araujo

Advogado, jornalista, pesquisador

 

REFERÊNCIAS

  • Karl Landsteiner — trabalhos pioneiros sobre os grupos sanguíneos ABO, 1900–1901.
  • Leone Lattes — desenvolvimento do método de determinação do grupo sanguíneo em manchas, 1913.
  • National Center for Biotechnology Information — história do sistema ABO.
  • Literatura histórica sobre serologia e investigação forense.

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