Lição da Ciência
"Antes que o sangue pudesse revelar um
nome, a ciência precisou descobrir que ele também carregava uma
identidade."
Durante
muito tempo, sangue era apenas sangue
Durante séculos, encontrar sangue significava
encontrar um vestígio.
Podia indicar que alguma coisa havia
acontecido.
Mas não respondia à pergunta que interessava à
Justiça:
A quem pertencia aquele sangue?
A pergunta parecia simples.
A resposta, entretanto, exigiria uma das
maiores descobertas da história da Medicina.
A
descoberta que mudou tudo
No início do século XX, o médico e cientista
austríaco Karl Landsteiner percebeu que o sangue humano não era
biologicamente igual em todas as pessoas.
Ao misturar diferentes amostras de sangue,
observou que algumas combinações provocavam aglutinação das hemácias, enquanto
outras não.
A partir dessas observações, Landsteiner
identificou os primeiros grupos sanguíneos do sistema ABO.
Em 1901, publicou a classificação que
estabeleceria as bases do conhecimento moderno sobre os grupos sanguíneos. O
grupo AB seria identificado pouco depois, em 1902.
A descoberta explicava por que algumas
transfusões eram compatíveis e outras podiam provocar reações graves.
Mas suas consequências ultrapassariam os
hospitais.
O sangue passou a carregar informação
A partir da descoberta dos grupos sanguíneos,
uma nova possibilidade surgiu.
Se as pessoas possuíam diferentes
características sanguíneas, uma mancha de sangue poderia conservar alguma
dessas características mesmo depois de separada do corpo.
O sangue deixava de ser apenas uma evidência
de que algo havia acontecido.
Começava a se transformar em evidência
sobre quem poderia estar relacionado àquele vestígio.
Era uma mudança extraordinária.
Leone
Lattes entra em cena
Foi então que a descoberta de Landsteiner
encontrou a Medicina Legal.
O italiano Leone Lattes, médico e
serologista, desenvolveu em 1913 um método para determinar o grupo sanguíneo a
partir de manchas de sangue secas.
O chamado teste de Lattes utilizava
reações de aglutinação para investigar características do sistema ABO presentes
na mancha.
Pela primeira vez, uma mancha que permanecera
aparentemente silenciosa podia oferecer uma informação biológica relevante à
investigação.
A química havia encontrado o veneno.
Agora, a serologia começava a encontrar uma
característica do sangue.
A mancha
que atravessou o tempo
Imagine uma pequena mancha seca.
Para o olhar comum, ela pode parecer apenas
uma marca antiga.
Para o investigador treinado, porém, ela pode
representar uma pergunta.
Foi sangue humano?
De que grupo?
É compatível com determinado indivíduo?
Pode excluir alguém?
A ciência transformava uma aparência em uma
sequência de perguntas verificáveis.
Mas havia
um limite
E aqui está uma distinção fundamental para
compreender a história da investigação científica.
O grupo sanguíneo não identificava sozinho uma
pessoa.
Se determinada mancha fosse classificada como
pertencente ao grupo A, isso não significava que ela necessariamente
pertencesse a uma pessoa específica.
Milhões de indivíduos poderiam compartilhar
aquela característica.
O valor forense estava, muitas vezes, na
capacidade de incluir ou excluir possibilidades, e não de apontar
sozinho um indivíduo.
Essa diferença seria fundamental para a
evolução posterior da ciência forense.
Do grupo ao
indivíduo
A descoberta dos grupos sanguíneos abriu uma
estrada.
Depois vieram outros marcadores biológicos.
Sistemas sanguíneos adicionais.
Proteínas séricas.
Enzimas.
Antígenos.
E, décadas mais tarde, a genética molecular.
A investigação caminhava lentamente de
características compartilhadas por muitos indivíduos para características cada
vez mais discriminatórias.
Até chegar ao DNA.
Mas essa história ainda estava distante.
O olhar da
História
A descoberta do sistema ABO por Landsteiner,
no início do século XX, criou a base para aplicações que ultrapassariam a
transfusão sanguínea. A utilização de características hereditárias dos grupos
sanguíneos em investigação forense e de parentesco começou a ganhar espaço nas
décadas seguintes.
O trabalho de Leone Lattes representou um
passo importante ao permitir a determinação do grupo ABO em manchas de sangue
secas.
O olhar da
Ciência
Hoje, o sangue pode revelar muito mais do que
o grupo ABO.
A ciência forense moderna dispõe de métodos
capazes de analisar diferentes componentes biológicos e, quando há material
genético adequado, realizar a identificação por perfil de DNA.
Mas é importante compreender a trajetória.
A ciência não saltou diretamente do sangue
para o DNA.
Ela percorreu um longo caminho.
Primeiro reconheceu o vestígio.
Depois classificou o sangue.
Depois comparou características.
Finalmente aprendeu a investigar o código genético.
O olhar do
autor
Talvez o mais fascinante nessa história seja
perceber que a ciência raramente começa encontrando a resposta.
Ela começa aprendendo a fazer perguntas
melhores.
Uma mancha de sangue existia muito antes de
Landsteiner.
O que mudou foi o olhar humano diante dela.
Antes:
“Há uma mancha.”
Depois:
“É sangue?”
Mais tarde:
“Qual é o grupo?”
E finalmente:
“Que informação biológica esse vestígio
conserva?”
A evolução da investigação científica pode ser
resumida justamente assim:
não é apenas aprender a ver o vestígio.
É aprender a perguntar o que ele pode dizer.
Legado para
a Justiça Contemporânea
Os grupos sanguíneos perderam protagonismo na
identificação individual depois do desenvolvimento de métodos genéticos muito
mais discriminatórios.
Mas sua importância histórica permanece
enorme.
Eles ensinaram à Justiça uma lição que seria
repetida inúmeras vezes na história da ciência forense:
um vestígio biológico pode carregar informação
sobre a pessoa que o deixou.
A partir dessa descoberta, o corpo humano
começou a deixar de ser apenas objeto da Medicina Legal.
Passou a ser também uma fonte de informação
para a investigação.
E a próxima revolução seria ainda mais
profunda.
Porque, dentro do sangue, existia algo que a
ciência ainda não havia aprendido a ler.
O DNA.
Para
refletir
"O sangue não diz apenas que alguém
esteve ali. A ciência aprendeu a perguntar o que mais ele pode revelar."
Elson Mesquita de Araujo
Advogado, jornalista, pesquisador
REFERÊNCIAS
- Karl Landsteiner — trabalhos pioneiros sobre os grupos sanguíneos
ABO, 1900–1901.
- Leone Lattes — desenvolvimento do método de determinação do grupo
sanguíneo em manchas, 1913.
- National Center for Biotechnology Information — história do sistema
ABO.
- Literatura histórica sobre serologia e investigação forense.
